sexta-feira, 18 de agosto de 2017
Sonolência e acidentes automobilísticos
INTRODUÇÃO
A intensidade da violência no trânsito brasileiro é causa
de constante preocupação. Dados obtidos no DETRAN/
RS revelam que no primeiro semestre de 1998 ocorreram
nas rodovias federais do Estado do Rio Grande do
Sul 4.925 acidentes, 151 com vítimas fatais. (DETRAN/
RS, Divisão de Programas Especiais e Estatística).
A consciência da dimensão do problema tem gerado
atitudes tais como a reformulação do Código Brasileiro
de Trânsito, as campanhas de educação promovidas e
divulgadas pela mídia e seminários relacionados com o
trânsito, como o que aconteceu em Porto Alegre em 1999,quando o problema do abuso do álcool ao volante e medidas
para o seu controle através do uso de etilômetros
foram amplamente debatidos. No entanto, a exemplo do
que ocorre em outros países, pouca atenção tem sido
dada ao problema da sonolência excessiva na direção enquanto
causa importante de acidentes, especialmente entre
motoristas de caminhões e de transportes públicos.
As explicações mais comuns acerca dos acidentes automobilísticos
versam sobre as más condições das estradas,
a inadequada manutenção dos automóveis, ônibus e
caminhões e sobre a “falha humana”, que muitas vezes é
utilizada como sinônimo de imprudência e/ou abuso de
álcool, mais raramente suspeita-se da possibilidade de que
o causador do acidente tenha dormido ao volante.
QUANDO PENSAR QUE A SONOLÊNCIA FOI A
CAUSA DE UM ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO?
A sonolência diurna excessiva, assim como o excesso
de velocidade, o uso de álcool, a imprudência e o mau
tempo tanto podem contribuir como constituir a causa de
muitos acidentes automobilísticos(1). Nos últimos anos a
possibilidade de que a sonolência excessiva tenha relação
com os acidentes tem sido considerada e a literatura mé-
dica tem divulgado resultados de investigações a este respeito,
embora, tanto os resultados obtidos como a metodologia
empregada nestes estudos ainda não permitam
conclusões definitivas(2-5). Uma das principais razões para
tal limitação é o fato de que, mesmo do ponto de vista
legal, nem todos os laudos de acidentes incluem a palavra
sonolência como causa de acidente. Além disso, a caracterização
das evidências de que a sonolência tenha provocado
o acidente é na maioria das vezes difícil de aferir,
uma vez que a sonolência não pode ser quantificada com
um exame laboratorial rápido como o que se aplica quando
existe a suspeita de abuso de álcool. Até o momento,
a possibilidade de que a sonolência excessiva possa ser
causadora do acidente é considerada na presença das
seguintes situações: ausência de marcas de pneus na área
do acidente; colisões contra obstáculos fixos; acidentes
com um único veículo ou o relato do próprio motorista
de ter adormecido ao volante (Sleep Apnea and Driving.
Letter from the American Sleep Apnea Association.
Washington, DC, June, 1997).
Estudos epidemiológicos realizados pelo grupo do New
York Thruway Studies estimam que aproximadamente
um terço dos acidentes automobilísticos fatais são causados
por motoristas em estado de sonolência (Wake Up!
Drive Alert Arrive Alive. National Sleep Foundation.
1996 AAA Foundation for Traffic Safety, USA).
As estatísticas no Brasil envolvendo sonolência excessiva
e acidentes automobilísticos são ainda pouco divulgadas.
O neurologista Geraldo Rizzo realizou uma pesquisa
nas três rodovias mais movimentadas do Estado do
Rio Grande do Sul no ano de 1998, entrevistando 1.000
motoristas (33% eram caminhoneiros), com o objetivo de
avaliar a qualidade e a quantidade de sono. Concluiu que,
embora a maioria dos motoristas tenha afirmado que a
sua qualidade do sono era boa, foram encontrados indicadores
de privação de sono. Nessa pesquisa ainda, 20%
dos entrevistados apontaram a fadiga e a sonolência como
razões para acidentes automobilísticos prévios(7)
.
SONOLÊNCIA DIURNA EXCESSIVA
A sonolência diurna excessiva (SDE) é uma queixa comum,
com prevalência estimada em 0,5-14%(6-9). A sua
importância reside no fato de que ela pode trazer conseqüências
importantes para o indivíduo, tanto no que diz
respeito ao prejuízo na sua qualidade de vida como no
desempenho das suas atividades profissionais ou na performance
no trânsito.
A literatura médica tem demonstrado que as pessoas
que não dormem bem, tanto em termos quantitativos
como qualitativos, apresentam com freqüência resposta
mais lenta aos estímulos externos e graus variados de dificuldade
de concentração(10). As repercussões no desempenho
cognitivo observadas nesses pacientes podem ser
resultantes da hipoxemia que ocorre durante o sono, das
alterações do fluxo sanguíneo cerebral durante o período
de vigília ou da SDE. Não obstante a causa, esse déficit
cognitivo pode comprometer gravemente a habilidade do
paciente para desempenhar uma série de atividades, dentre
elas a capacidade de dirigir de maneira segura, além
de alterar a sua percepção crítica sobre a habilidade de
dirigir naquele momento(11)
.
Inúmeras são as causas de SDE e sabidamente ela é
afetada por hábitos inadequados de sono, incluindo sono
em quantidade insuficiente, pela idade, pelo uso de medicamentos
e drogas (álcool e outras)(12-14). Dentre as causas,
a síndrome da apnéia obstrutiva do sono (SAOS) e a
narcolepsia são as mais freqüentemente encontradas nos
pacientes com sonolência moderada e grave.
A SAOS é caracterizada por episódios repetidos de obstrução
parcial ou completa das vias aéreas superiores durante
o sono. É uma situação muito freqüente, especialmente
em obesos do sexo masculino, com prevalência de
2% para as mulheres e 4% para os homens, com tendência
ao aumento da prevalência após os 60 anos, quando
pode chegar até 40%(15). Estima-se que 80% dos casos de
SAOS são subdiagnosticados(16). Os sintomas mais comuns
são ronco alto e descontínuo, episódios de ressonares,
movimentação brusca do corpo para restabelecer a respiração,
sudorese profusa, sonolência diurna excessiva, cansaço
crônico e modificações da personalidade com redu-
ção da performance motora e intelectual. Do ponto de
Canani SF, Menna Barreto SS
96 J Pneumol 27(2) – mar-abr de 2001
vista fisiopatológico, os episódios de obstrução parcial ou
completa das vias aéreas vão gerar repercussões cardiovasculares,
com a ocorrência de dessaturações, alterações
cíclicas da pressão arterial com episódios de hipertensão
e alterações do ritmo cardíaco(17). Esses episódios vão também
ocasionar fragmentação do sono com despertares
freqüentes para vencer a obstrução e redução das quantidades
de sono NREM estágios 3 e 4 (sono delta) e REM.
Pacientes com SAOS têm redução do seu estado de vigilância
conforme demonstrado por Findley et al.(2,11). Atribui-se
a essa dificuldade de manter-se alerta o risco aumentado
de acidentes automobilísticos nesse grupo de
pacientes. Terán-Santos et al.(18) demonstraram forte associação
entre apnéia do sono e o risco para acidentes
automobilísticos. Nesse trabalho recentemente publicado,
a razão de chances para acidentes nos pacientes que
apresentavam dez ou mais eventos obstrutivos/hora de
sono (índice de apnéia/hipopnéia) foi de 6,3 (IC 95%
2,4-16,2). Nessa análise foram controlados os principais
fatores de confusão, incluindo consumo excessivo de álcool,
idade, índice de massa corporal, experiência na direção,
uso de drogas potencialmente indutoras de sono,
horário de sono e história prévia de acidentes automobilísticos.
CONCLUSÕES
A sonolência excessiva é uma situação cujas conseqüências
geram repercussões não só do ponto de vista pessoal
como social, constituindo-se os acidentes automobilísticos
num dos principais exemplos de suas conseqüências.
É importante salientar que, embora existam muitas causas
de sonolência excessiva, a maioria tem tratamento
conhecido e disponível em nosso meio, como a síndrome
da apnéia obstrutiva do sono, por exemplo. Entendemos
que levantamentos epidemiológicos em grupos considerados
de alto risco para a SDE, como os motoristas profissionais,
permitirão dimensionar o problema e suas repercussões
em nosso meio, até mesmo do ponto de vista de
legislação de trânsito, além de permitir a identificação das
suas principais causas. É a partir desse conhecimento mais
amplo que poderão surgir modificações na abordagem
de um paciente com sonolência excessiva, o que poderá
finalmente resultar em diminuição do número de acidentes
automobilísticos.
REFERÊNCIAS
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The National Board of Health 1982;26:253-260.
10. Findley L, Barth J, Powers D, et al. Cognitive impairment in patients
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90:686-690.
11. Findley L, Levinson M, Bonnie R. Driving performance and automobile
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12. International Classification of Sleep Disorders. Diagnostic coding manual
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13. Roth T, Roehrs TA, Conway WA. Behavioral morbidity of apnea. Semin
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15. Young T, Palta M, Dempsey J, Skatrud J, et al. The occurrence of
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1993;328:1230-1235.
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17. Cetel M, Guilleminault C. Obstructive sleep apnea syndrome. In: Chokroverty
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and clinical aspects. Ed. Butterworth-Heinemann, 1994;199-
217.
18. Terán-Santos J, Jiménez-Gomez A, Cordero-Guevara J and the Cooperative
Group Burgos-Santander: The association between sleep apnea
and the risk of traffic accidents. N Engl J Med 1999;340:
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