CENTRO UNIVERSITÁRIO DO NORTE
CURSO DE FISIOTERAPIA
DISCIPLINA: Métodos e Técnicas de Avaliação
AVALIAÇÃO NEUROLÓGICA
Introdução
Uma avaliação
completa oferece um diagnóstico mais preciso e auxilia na reabilitação do
paciente, em menor tempo. Tendo conhecimento da patologia e todos os assuntos
correlacionados, dedica-se atenção especificamente a pontos estratégicos,
diminuindo o tempo de internação dos pacientes, melhorando sua qualidade de
vida, proporcionando bem-estar e dando condições de adaptações ao cotidiano no
caso de haver seqüelas.
Etapas da avaliação
·
Anamnese
– Observa a história do paciente, sendo bastante importante para a avaliação.
·
Exame
Físico – proporciona elementos valorosos para a
orientação diagnostica.
·
Exames
Complementares – utilizado quando não se chega a uma conclusão
diagnostica nas etapas anteriores e para reforçar ou complementar o diagnóstico
obtido nas etapas anteriores.
Anamnese:
·
Identificação
– favorece o relacionamento com o paciente (nome, idade, sexo, profissão, cor,
nacionalidade, naturalidade).
·
Queixa
principal – qual a queixa principal, ou seja, o que o fez
procurar ajuda.
·
Historia
da Doença Atual (HDA) – todos os dados que se referem aos
sintomas da doença, que devem ser notificados desde o seu início até a presente
data. Ponto mais importante da anamnese para se levar a um diagnóstico. O
paciente deverá responder a quanto tempo começou a doença; como começou; como
evoluiu.
·
Antecedentes
Pessoais – quais as doenças contraídas pelo paciente em
toda a sua vida.
·
Antecedentes
Familiares – estudo das doenças que foram contraídas pelos
familiares.
OBS: Na observação de todos esses elementos da anamnese, tem-se
que haver clareza, concisão, cronologia e caracterização dos sintomas.
Exame físico:
·
Introdução
Avaliação do Estado
Geral:
Ø
Primeiras
Impressões na Sala de Espera – observa a
coordenação, timbre da voz, e o som dos passos (a maneira como o paciente
deambula).
Ø
Primeiras
Impressões na Entrada do Paciente – observa a locomoção,
como o paciente chega ao fisioterapeuta; o tipo de marcha; a coordenação
desenvolvida entre membro superior e inferior; aspecto quanto à pele, cabelo e
fisionomia.
Ø
Atitudes
do Paciente – posturas adotadas pelo paciente em pé, deitado
ou deambulando.
Estado Mental
§
Cooperação
– comprometimento de sua consciência, insegurança, falta de cooperação, alucinação,
falta de confiança, elevado grau de agressividade.
§
Orientação
– dia, mês, idade, endereço.
§
Estado
Emocional – ansiedade, excitação, apatia.
§
Fala
– disartria (dificuldade de articular as palavras), disfasia (não consegue
exprimir seus pensamentos através da palavra).
Sensibilidade
Definição
– é capacidade de captar um determinado estímulo e funciona protegendo o
organismo dos elementos nocivos a ele, sendo dividida em superficial (da pele –
tátil, frio, calor, dor), sensibilidade muscular e óssea (pressão, vibração e
posição), e sensibilidade da visão, audição, equilíbrio, olfato.
Exteroceptiva
a)
Tátil – feita sobre a
pele de modo suave, com um algodão ou pincel. O paciente deve estar com os
olhos fechados e devem-se estimular várias vezes e ao final perguntar quantas
vezes foi estimulado.
b)
Dolorosa – feita com
alfinete, através do mapeamento em nível de pele suavemente (por que a dor é
superficial) e pergunta o que o paciente está sentindo.
c)
Térmica – se pega um
tubo de ensaio com água fria (8ºC) e outro com água quente (36ºC) e encosta na
pele do paciente.
Proprioceptiva:
a)
Sentido de posição
– faz a posição, retira e pede ao paciente para repetir a mesma posição, com os
olhos abertos no início e depois com os olhos fechados.
b)
Sentido de movimentação passiva
– realiza o movimento passivo, detém essa posição e pergunta em qual direção
foi levado o seguimento.
Combinada:
a) Barestesia – pressão sobre a musculatura do paciente e
pergunta-se o tipo de sensação que o paciente está sentindo.
b) Barognosia – Reconhecimento de pesos.
c) Esterognosia – reconhecimento de formas de objetos.
d) Grafestesia – reconhecimento de grafias na pele.
e)Vibratória – detecta a sensibilidade óssea. É feita com o
diapasão que deve ser colocado sobre os processos ósseos, fazendo com que o
paciente sinta quando começa e quando termina a vibração.
Alterações:
a)Algia – presença de dor.
b)Parestesia – presença de sensações anormais.
c)Hipoestesia – aumento do limiar de excitabilidade nervosa
com conseqüente diminuição da sensibilidade.
d)Hiperestesia – diminuição do limiar de excitabilidade
nervosa com conseqüente aumento da sensibilidade.
e)Anestesia – ausência de sensibilidade.
Função Muscular
É a capacidade
que um músculo apresenta de vencer uma determinada resistência. É testada
através da escala de Oxford que varia entre o grau zero e cinco. No grau 0 há
ausência total de contração muscular; no grau 1 há contração, que é visível ou
palpável, mas não há movimento; no grau 2 há movimento em um único plano; no grau
3 há vencimento da gravidade, mas não há sustentação; no grau 4 há vencimento
da gravidade e contração por cerca de 1 minuto ou uma leve resistência e no
grau 5 é a força normal.
A paresia é a diminuição da
força muscular, a parestesia é a sensação de formigamento e a paralisia ou
plegia é a ausência ou a abolição da força muscular.
Tipos de Déficit Motor:
Déficit por lesão do neurônio motor superior (1º neurônio)
– não apresenta
movimentos
isolados, ele compromete grupos musculares como a DCV.
Déficit por lesão do neurônio motor inferior (2º neurônio)
– ocorre quando a
inervação
segmentar está comprometida; o estimulo não passa, não havendo resposta ao
comando.
Déficit por lesão muscular – a lesão
atinge o músculo em isolado ou grupo muscular,
como
na miosite.
Trofismo Muscular
Definição – a nutrição, o desenvolvimento e a vida,
isto é, o trofismo de determinados tecidos, como muscular, pele, ossos,
articulações estão muito vinculados com o sistema nervoso, uma vez que numa
dada lesão do sistema nervoso, vai aparecer nessas estruturas transtornos
tróficos. O trofismo depende do neurônio motor periférico e qualquer alteração
dada nesta célula, seja em seu corpo celular situada na medula em sua ponta
anterior ou a nível de suas prolongações cilindro ciliares (raiz e axônio)
teremos paciente com problemas tróficos.
Exploração – Inspeção, observando
o estado da pele, unhas, situação das articulações, deformidades de origem
torácica. Palpação complementa a inspeção examinando a massa muscular, se
existem depressões, o estado de elasticidade. Na mobilização observa-se se a
alteração trófica acarreta algum bloqueio ao movimento. Exames complementares,
através da perimetria para medir a massa muscular de forma comparativa; e
eletromiografia que detecta a funcionalidade das fibras musculares.
Transtornos Tróficos:
Atrofias – diminuição do volume do músculo e das
fibras contráteis desse músculo. A sua origem depende do local onde o 2º
neurônio motor seja lesado, podendo ocorrer no seu corpo (na parte anterior da
medula) ou na raiz; e a lesão pode ocorrer no 2º neurônio motor periférico. As
atrofias podem ser neuropáticas (lesão do 1º neurônio motor), miopáticas (doenças
do próprio músculo) ou por causas não definidas (generalizadas, proximais,
distais, grupos musculares ou músculos individuais, lesões de nervos
periféricos, lesões traumáticas do músculo).
Hipertrofias – aumento do volume do músculo
Pseudohipertrofia – que ocorre por acúmulo de gordura e tecido conjuntivo na distrofia muscular progressiva.
Tônus muscular
Definição
– estado de contração de um músculo em repouso, constituindo a base da
motilidade estática, pois, fixa as articulações no momento da contração de
outro grupo muscular, sendo considerado um fenômeno reflexo.
Exploração do Tônus
– através da inspeção observa-se a atitude dos membros, com a palpação se o
músculo está hiper ou hipotônico, e com a mobilização passiva se oferece
resistência e o seu grau.
Alterações
do Tônus Muscular:
Hipotonia – é o aumento do tônus
muscular, e acontece nas lesões do arco reflexo, seja nas lesões aferentes ou
eferentes, bem como nas lesões do cerebelo, ex: de causas musculares (miopatias).
Pode ocorrer por lesão do SNP, atacando as vias sensitivas (polineurite,
radiculite) e por lesão do SNC atacando o corpo do 2º neurônio motor como poliomielite
e afecções cerebelares.
Hipertonia Piramidal - ocorre lesão do
neurônio motor superior, apresenta o sinal da navalha, que é uma resistência
que se apresenta no inicio do movimento, e depois desaparece permitindo o
movimento. Ex: hemiplegias, paraplegias espásticas e monoplegias espásticas.
Hipertonia Extra piramidal – hipertonia
plástica, também chamada de rigidez e se instala de maneira igual tanto nos músculos
agonistas como nos antagonistas e se caracteriza pelo sinal da roda denteada onde
se faz o movimento passivo e oferece uma resistência, que é vencida por etapas,
sendo comum no parkisoniano.
Reflexos
O reflexo é uma
resposta do organismo a um estímulo de qualquer natureza. O arco-reflexo, a
base anátomo-funcional dos reflexos, é constituído por uma via aferente, um
centro reflexógeno, uma via eferente e um órgão efetuador, geralmente um
músculo.
São graduados em
grau 0 – abolido, grau 1 – reduzido, grau 2 – normal, grau 3 – vivo, grau 4 –
exaltado ou hipercinético.
Os reflexos
podem ser profundos (proprioceptivos / miotáticos), com os quais se reconhecem
os tipos fásicos ou clônicos e os tônicos ou posturais. Na pesquisa dos
reflexos miotáticos fásicos ou clônicos o estímulo é feito pela percussão com o
martelo de reflexos do tendão do músculo a ser examinado:
•
Membros superiores: reflexo bicipital (flexão do antebraço – integração C5 e
C6, nervo musculocutâneo), tricipital (extensão do antebraço percutindo-se
próximo ao olecrano – integração C6, C7 e C8, nervo radial);
•
Membros inferiores: reflexo patelar (abaixo da patela – integração L2 e S4,
nervo femoral), aquileano (flexão plantar do pé percutindo-se o tendão de
Aquiles – integração L5, S1 e S2, nervo tibial);
•
Cutâneo-plantar (integração L5-S2): flexão dos dedos do pé estimulando a face
plantar do pé lateralmente em sentido póstero-anterior. A extensão dos dedos do
pé ou do hálux caracteriza o sinal de Babinski. O sinal de Babinsk indica lesão piramidal.
Tal resposta pode ser obtida apertando com a mão os gastrocnêmios (sinal de
Gordon), apertando com os dedos, polegar e indicador o tendão de Aquiles (sinal
de Schaeffer), deslizando com força os dedos do examinador de cima para baixo
na tuberosidade da tíbia (sinal de Oppenheim) ou deslizando uma ponta romba na
região lateral do pé, do maléolo lateral até o quinto pododáctilo (sinal de
Chaddoc);
Coordenação muscular (taxia)
Definição –
é o resultado da interação entre os músculos agonistas e antagonistas na
realização dos movimentos. As vias sensitivas, a excitação do próprio músculo e
os receptores cinestésicos (corpúsculos de golgi, paccine, fusos musculares, e
terminações nervosas livres) asseguram o mecanismo da coordenação.
Mecanismo da
coordenação – o estimulo é captado na periferia, sobem para o
centro pelas vias sensitivas, chegam ao gânglio e entram por várias
ramificações e entram no corno posterior da medula, onde vão fazer sinapses com
o 2º neurônio motor que ficam no bulbo. O estimulo sobe para o tálamo óptico e
daí para o córtex cerebral (lobo parietal), onde são conscientizados e enviados
para o cerebelo pela via espino cerebelosa.
Exploração da
Coordenação – a coordenação dinâmica é realizada e
superiores através de movimentos, sendo observado se treme durante a
realização, devendo ser realizado com os olhos abertos e depois fechados. Na
coordenação estática o paciente fica em pé e pede para que ele feche os olhos e
observa se ele consegue continuar em pé.
•
Exame do equilíbrio através da marcha: olhos abertos e fechados;
•
Prova dedo-nariz: olhos abertos e fechados;
•
Prova calcanhar-joelho: em decúbito dorsal;
•
Prova da inversão rápida do movimento: a fim verificar disdiadococinesia;
•
Prova das habilidades (escrita e prova dos riscos horizontais de Babinski). Na
prova dos riscos horizontais de Babinski observam-se tremores e dismetrias;
•
Prova do copo (pedir que o paciente leve um copo de água à boca).
*Exame do equilíbrio com
o paciente de pé: olhos abertos e fechados se houver desequilíbrio é o sinal de
Rovsing;
*Exame do equilíbrio
através da marcha: olhos abertos e fechados;
Alterações: Atáxias
Marchas
Para realização
da marcha é necessário que haja sinergia (harmonia dos movimentos elementares
associados), diadococinesia (continuidade dos movimentos complexos, pelo
desenvolvimento dos movimentos elementares simultâneos) e eumetria (medida do
movimento, para que não sejam efetuados erroneamente).
Mecanismo da Marcha – O córtex envia ordem para os centros efetores através da
via piramidal e ao mesmo tempo envia ordem para os centros reguladores do tônus
para que seja assegurada a sinergia, diadococinesia, eumetria, através da via
córticopontocerebelorubroespinhal. Iniciado o processo da marcha, chegam
através da via da sensibilidade profunda ou via proprioceptiva excitações
originadas pelo alongamento muscular, aparelho labiríntico e da visão mantendo
o posicionamento e a postura durante a marcha.
Deve-se observar
o paciente caminhar e os movimentos associados. Pedir para o paciente andar na
ponta dos pés e nos calcanhares e pular num pé só. Os distúrbios da marcha são
denominados disbasias.
·
A marcha atáxica da síndrome cerebelar é
também denominada marcha ebriosa ou cambaleante, onde o paciente freqüentemente
necessita ampliar sua base de sustentação.
·
A marcha ceifante (hemiplégica ou
helicópode) consiste no membro superior fletido, aduzido e punho pronado. O
membro inferior está espástico, não fletindo, arrastando a perna em semicírculos. Ocorre
geralmente nos AVC’s.
·
A marcha da síndrome parkinsoniana é
caracterizada pela rigidez muscular que confere à marcha um caráter em bloco, a
cabeça e o tronco permanecem inclinados para frente, o quadril e os joelhos
estão levemente flexionados, os passos são curtos (petit pass), a marcha é
vagarosa e arrastada.
·
A marcha anserina ocorre nos pacientes com
acentuação da lordose, inclinação do tronco à esquerda ou à direita, e está
relacionada com patologias musculares que causam diminuição de força dos
músculos pélvicos e das coxas.
·
A marcha em tesoura (ou espástica) tem
como característica a espasticidade dos membros inferiores, que permanecem
semifletidos, arrastando os pés e cruzando-os um na frente do outro.
·
A marcha parética ocorre quando há
diminuição da força, onde o paciente parece tremer.
·
A marcha claudicante faz com que o
paciente manque em razão de insuficiência arterial periférica ou de lesão do
aparelho locomotor.
·
A marcha festinante é semelhante à
parkinsoniana, porém nessa o paciente tem inclinação muito grande, quase
caindo.
·
Marcha Tabética – lesão do sistema
proprioceptivo. O paciente perde a noção de posição do seguimento em relação ao
espaço, devido à perda da sensibilidade segmentar. O paciente levanta
excessivamente a perna e joga o talus (calcanhar) no chão, também chamada de
marcha taloneante.
·
Marcha Escarvante – lesão do nervo ciático
poplíteo externo, que inerva o tibial anterior. O paciente flete exageradamente
o joelho e o quadril, para compensar o pé ficar caído.
Conclusão
Com todos os dados acima, é possível concretizar a idéia da
importância de um bom atendimento ao paciente neurológico. Assim como é de
extrema relevância conhecer todos os tópicos que abordam a questão, desde uma
fáscie ou atitude até um tipo de movimento involuntário. É interessante
considerar o paciente como um todo, como um conjunto complexo, e não apenas
como um cérebro com tumor, ou paciente que teve AVC. Todo paciente tem sua
história única, sua vivência, seus hábitos e o seu futuro dependem de toda a
equipe envolvida no estudo e tratamento dos pacientes neurológicos.
Referências
Bibliográficas:
BICRESTAF. Exame do Paciente Neurológico. São
Paulo: Atheneu, 1992.
DUSS, P. Diagnóstico
Topográfico em Neurologia. 3 Ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1995.
EDWARDS. Fisioterapia Neurológica. São Paulo:
Artmed, 1997.
MACHADO, A . Neuroanatomia Funcional. 2 Ed. , São
Paulo: Atheneu, 1998.
SANVITTO, W. I. Propedêutica Neurológica Básica. Rio de
Janeiro: Atheneu, 2000.
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