Epidemiologia da DPOC no presente – aspectos nacionais e
internacionais. Epidemiology of COPD in present – national and international
aspects. Carlos Leonardo Carvalho Pessôa1 , Roberta Suarez Pessôa2 . 1. Doutor
em Pneumologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em
Pneumologia pela Universidade Federal Fluminense. 2. Acadêmica de Medicina da
Fundação Técnico-Educacional Souza Marques. Endereço para correspondência:
Carlos Leonardo Carvalho Pessoa. Av. Quintino Bocaiúva 325/410, São Francisco,
CEP 24360-022, Niterói, RJ, Brasil. E-mail: pessoaclc@hotmail.com. Resumo A
DPOC é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo.
Pode-se atribuir a maioria dos casos ao tabagismo, cuja eliminação seria
suficiente para reduzir drasticamente o número de casos da doença.
Aproximadamente 16 milhões de americanos já foram diagnosticados como
portadores de DPOC e este número pode estar subestimado, estimando-se que
permaneçam sem diagnóstico cerca de 30 milhões de indivíduos. No Brasil,
estima-se que até 12% da população com mais de 40 anos possa ter DPOC. Os
sinais e sintomas mais comuns da DPOC são dispnéia que piora aos esfor- ços,
frequentemente acompanhadas de tosse, expectoração e sibilância. Muitos idosos
apresentam alguns destes sintomas por condicionamento físico inadequado ou
obesidade. Tosse e expectoração são tão comuns em fumantes que podem ser
consideradas normais. A sibilância é eventualmente atribuída a asma brônquica
ou a infecções virais. A evolução silenciosa e gradual da doença permite, não
raramente, uma adaptação do estilo de vida do paciente inadequado
condicionamento determinado pela doença. Há situações em que pode ser
impossível distinguir pacientes asmáticos dos portadores de DPOC e seguramente
há asmáticos que pela gravidade ou irreversibilidade de suas doenças ou pelo
fato de serem ou terem sido tabagistas recebem o diagnóstico inadequado de
DPOC. Há provavelmente uma subestimação nos números da DPOC no Brasil e no
mundo, mas provavelmente há muitos portadores de asma inadequadamente
classificados como portadores de DPOC. Descritores: DPOC, epidemiologia.
Abstract The COPD is one of the main causes of morbidity and mortality worldwide.
The majority of cases can be attributed to smoking. Extinguish the habit of
smoking in the world would be sufficient to reduce drastically the number of
cases of the disease. Approximately 16 million americans were already diagnosed
with COPD and this number may be underestimated. It is estimated to remain
undiagnosed about 30 million individuals. In Brazil, it is estimated that up to
12% of the population over 40 may have COPD. The most common signs and symptoms
of COPD are dyspnea on exertion, often accompanied by cough with sputum
production and wheezing. Many older individuals experience dyspnea on exertion
because of deconditioning and obesity. Cough and sputum production is so common
in smokers that it may be considered normal. Wheezing occurs frequently, but
often is attributed to asthma or a viral respiratory tract infection, leading
to a diagnosis of asthma. The clinically silent nature of early COPD and the
indolent course of the disease allow patients to accommodate their growing
disability with lifestyle changes. It may be, sometimes, impossible to
distinguish asthma from COPD. Severity and irreversibility of some cases of
asthma induce to wrong diagnosis of COPD, specially in smokers patients. There
is probably an underestimation in the numbers of COPD in Brazil and in the
world, but probably many people with asthma inadequately classified as patients
with COPD. Keywords: COPD, epidemiology. Artigo original 8 Pulmão RJ -
Atualizações Temáticas 2009;1(1):7-12 A DPOC é uma das principais causas de morbidade
e mortalidade em todo o mundo. Pode-se atribuir a maioria dos casos ao
tabagismo, cuja eliminação seria suficiente para reduzir drasticamente o número
de casos da doença.1 Durante muitos anos, considerou-se que apenas 15% dos
fumantes desenvolveriam DPOC.2 Mais recentemente demonstrou-se que a
continuidade do tabagismo determinaria obstrução aérea em até 50% em indivíduos
com mais de 70 anos.3 Outro problema atual são as evidências de que a DPOC
represente várias diferentes doenças que exigiriam diferentes intervenções
terapêuticas. Além disso, em muitas regiões do mundo, a prevalência e a
mortalidade da DPOC está ainda aumentando em resposta ao hábito de fumar,
particularmente nas mulheres e nos adolescentes. Recursos utilizados na
cessação e prevenção do tabagismo, na educação sobre a DPOC e seu diagnóstico
precoce e tratamento adequado são os fatores mais importantes na redução da
prevalência, morbidade e mortalidade da DPOC.4 Existem várias definições
diferentes para a DPOC. A American Thoracic Society (ATS) define DPOC como “uma
doença caracterizada pela presença de limitação do fluxo aéreo devido à
bronquite crônica ou enfisema. A obstrução ao fluxo aéreo é geralmente
progressiva, pode ser acompanhada por hiperreatividade das vias aéreas, e pode
ser parcialmente reversível.”5 A European Respiratory Society (ERS) a define
como “redução máxima de fluxo expiratório forçado e lento esvaziamento dos
pulmões, que é lentamente progressiva e geralmente irreversível aos recursos
médicos atualmente disponíveis.”6 A Iniciativa Global para a Doença Pulmonar
Obstrutiva Crônica (GOLD) classifica DPOC como “uma doença caracterizada pela
limitação do fluxo aéreo que não é totalmente reversível. A limitação ao fluxo
aéreo é geralmente progressiva e associada tanto com uma resposta inflamatória
anormal dos pulmões a partículas ou gases nocivos”.7 A limitação do fluxo aéreo
caracteriza-se pela redução do fluxo expiratório detectada pela espirometria,
com redução irreversível de VEF1 e da relação VEF1/ CVF. A ATS em 1995 não
definiu um nível específico de redução da relação VEF1/CVF para o diagnóstico
de DPOC5 , apesar do documento anterior desta sociedade haver considerado uma
relação VEF1/CVF inferior ao quinto percentil como prova de limitação de fluxo
aéreo.8 A ERS 1995 definiu que limitação de fluxo aéreo caracteriza-se pela
razão VEF1/CVF 40 anos, estimaram uma prevalência de 9,2%, ou seja, quase 10
vezes superior à estimativa da OMS.18 Segundo a OMS, no estudo LARES em 2003 e
2004, a prevalência referida de bronquite e enfisema em adultos de oito cidades
européias foi de 6.2%.19 Na Irlanda do Norte, estimou-se uma prevalência de
14,4% de portadores de DPOC em indivíduos entre 40 e 69 anos.20 Na Áustria a
prevalência demonstrou-se também muito elevada, com 26,1% com DPOC classificada
como leve e 10,7% com a doença moderada. O diagnóstico confirmado por médico
foi referido em apenas 5,6%.21 Na Suécia22, a incidência cumulativa de DPOC em
10 anos era de 15,3 e 11.8% em homens e mulheres, respectivamente. A média foi
de 9,4% em não fumantes e 24,5% em tabagistas. Em outro estudo, Lindberg e
cols23 observou em 7 anos, uma incidência cumulativa de 11% e 4,9% de
portadores de DPOC nos estágios I e II do GOLD. A incidência era
significativamente mais elevada em tabagistas (18,8 contra 10,6%). Na
Noruega24, em seguimento de uma população por 9 anos, detectou-se incidência
cumulativa, utilizando-se o critério do GOLD, de 8,6% em homens e 3,6% em
mulheres, e de 1,8% em não fumantes e 22,7% em fumantes com consumo maior que
20 maços-ano. Na Dinamarca, em estudo de seguimento por 25 anos.25 A incidência
de DPOC definida por testes de funções pulmonares variaram de 4,0 e 9,0% em
homens e mulheres não tabagistas e de 41 e 31% em homens e mulheres tabagistas.
A incidência cumulativa de DPOC moderada e severa foi de 20,7 e 3,6%
respectivamente. Em outro estudo de seguimento de 30 anos realizado na
Finlandia,26 a incidência cumulativa de bronquite crônica e DPOC foram de 42 e
32%, respectivamente, em fumantes, comparados com 22 e 12% em não tabagistas.
No Japão,27 a prevalência de redução de fluxo respiratório foi de 10,9% tendo
sido, 56% dos casos leves, 38% moderados, 5% graves e 1% muito graves, segundo
o GOLD. Comprometimento do fluxo respiratório foi mais prevalente em homens do
que em mulheres (16,4% vs. 5,0%; p < 0.001), em homens tabagistas do que em
mulheres tabagistas (17,1% vs. 7,5%; p < 0.001), e em idosos (3.5% em
indivíduos entre 40 e 49 anos contra 24,4% em indivíduos maiores de 70 anos; p
< 0.001). Redução do fluxo respiratório foi detectada em 5,8% dos indivíduos
não tabagistas, em 4,6% dos indivíduos com menos de 60 anos. Somente 9,4% dos
casos dos que apresentaram tal redução referiram diagnóstico prévio de DPOC. É
surpreendente observar a escassez de estudos epidemiológicos de prevalência
sobre DPOC em nosso meio. O primeiro estudo de base populacional encontrado na
literatura brasileira mostra uma prevalência de bronquite crônica em adultos
acima de 40 anos, em Pelotas, RS, de 12,7% (IC 95% de 10,6% a 14,7%).28 Em nosso
país vem ocorrendo um aumento do número de óbitos por DPOC nos últimos 20 anos,
em ambos os sexos. A mortalidade passou de 7,88 em 100.000 habitantes na década
de 1980, para 19,04 em 100.000 habitantes na década de 1990, com um crescimento
de 340%.29 Na América Latina (estudo PLATINO) a prevalência da DPOC variou dede
7,8% no México a 19,8% no Uruguai. No Brasil a prevalência foi estudada em São
Paulo e foi de 15,8%.30 A literatura internacional é um pouco mais rica. No
entanto, é preciso cautela na interpretação dos resultados, pois diferentes
achados devem-se em parte à falta de estudos representativos e à variabilidade
no critério diagnóstico.31 Uma das maiores vulnerabilidades dos inquéritos
epidemiológicos são os critérios de inclusão. Pacientes com asma grave e com
remodelamento brônquico, por exemplo, podem apresentar redução irreversível do
fluxo aéreo e mimetizar o DPOC e talvez tenham sido incluídos nos inquéritos
epidemiológicos acima. A questão é se é correto incluí-los. Estes pacientes
podem ser considerados portadores de DPOC, sendo Pessoa CLC, Pessoa RS .
Epidemiologia da DPOC 10 Pulmão RJ - Atualizações Temáticas 2009;1(1):7-12 a
asma uma doença com patogenia e características celulares tão diferentes da
DPOC, somente por conta da irreversibilidade de suas doenças? Será também que
não há asmáticos com a relação VEF1/CVF
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
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