1. INTRODUÇÃO
Segundo Chaves et al. (2000), o acidente vascular
encefálico (AVE) é uma síndrome neurológica complexa envolvendo anormalidade
usualmente súbita do funcionamento cerebral decorrente de uma interrupção da
circulação cerebral ou de hemorragia seja parenquimatosa ou subaracnóidea. É
uma patologia com alto grau de mortalidade, tal condição acarreta grande
morbidade com perda funcional, levando ao surgimento de dependência parcial ou
completa. É o surgimento agudo de uma disfunção neurológica devido uma
anormalidade na circulação cerebral, causando sustentação assimétrica do peso
corporal, devido a hipotonia e etc.
De acordo com Dias (2006),
constitui-se uma patologia de alta incidência acompanhada de uma elevada taxa
de mortalidade e considerada uma causa primária de inabilidades após sua instalação.
Cerca de 600 novos casos ocorrem nos Estados Unidos a cada ano, significando
uma parcela de mais da metade de todos os pacientes agudos admitidos em
hospitais, acarretando um custo de 30 bilhões com os cuidados de saúde e perda
de produtividade dos mesmos. O AVE é uma causa importante de morbidade em nosso
meio, sendo a terceira causa de morte nos países industrializados.
Para
Tavares (2008), os fatores de risco mais relacionados com o AVE incluem
Hipertensão Arterial, Diabetes Mellitus, Tabagismo, Doenças Cardíacas,
Hipercolesterolimia, Sedentarismo, comportamentais (emocionais e stress),
Obesidade e Predisposição Genética.
Dentre as manifestações clínicas,
podemos citar os prejuízos das funções sensitivas, motoras, de equilíbrio e de
marcha, além do déficit cognitivo e de linguagem. Entre as alterações motoras,
destaca-se a hemiplegia, caracterizada pela perda de força muscular no dimídio
contralateral à lesão encefálica. Esses prejuízos resultam em limitação na
realização das atividades de vida diária (AVD), restrições na participação
social e, consequentemente, piora da qualidade de vida (SCALZO, 2010).
A intervenção fisioterapêutica auxilia na rápida e
pronta recuperação do indivíduo com seqüela de AVE e é de suma importância que
seja instituída precocemente. Sendo esta uma ciência aplicada, que tem por
objetivo preservar, manter, desenvolver ou recuperar a integridade de órgãos,
sistemas ou funções, especificamente, ela auxilia na restauração das funções
perdidas, levando assim ao melhor restabelecimento do paciente às suas
atividades de vida diária (MOTTA; NATALIO; WALTRICK, 2008).
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Conceito
O
acidente vascular encefálico (AVE) é uma doença crônico-degenerativa causada
por uma diminuição ou interrupção do fluxo sanguíneo em uma determinada área do
encéfalo provoca déficits neurológicos, gera assim uma alta incidência de incapacidade
física e até mesmo o óbito (VELOSO et al.,
2007).
2.2
Epidemiologia
Dentre 35 milhões de mortes atribuída às
doenças crônicas que ocorreram em todo o mundo em 2005, o AVE foi responsável
por 5,7 milhões (16,6%) das mortes, sendo que 87% ocorreram em países
subdesenvolvidos. Dessa forma, o AVE é um problema de saúde mundial. Nos
Estados Unidos, a incidência é de 700.000 casos por ano (165.000 correspondem a
óbitos), e os respectivos custos anuais chegam a aproximadamente 58 bilhões de
dólares. Na América Latina, o AVE é causa permanente de morbidade e mortalidade
entre adultos. Estudo realizado na América do Sul revela uma incidência de 35 a
183 casos por 100.000 habitantes. No Brasil, as taxas de mortalidade ajustadas à
idade para o AVE estão entre as maiores em nove países da América Latina
(LEITE; NUNES; CORRÊA, 2009).
2.3 Incidência
O AVE em adultos jovens é considerada uma patologia rara,
com uma incidência descrita na literatura que varia entre 5 e 10% do total de
AVE, aumentando com a idade, onde cerca de 85% dos AVE são de origem isquêmica
(SCHELP et al., 2004). Há maior freqüência
em indivíduos idosos, aumentando o risco de ocorrer quando se soma com as
alterações cardiovasculares e metabólicas relacionadas à idade. Sua incidência é
duas vezes e meia mais alta em populações negras do que em brancas, e mais freqüente
em homens do que em mulheres (RADANOVIC, 2000).
2.4 Etiologia
A aterosclerose é a
principal causa, sendo resultado de má alimentação e condições comportamentais.
A principal conseqüência da formação das placas de ateroma nas paredes
arteriais é o surgimento de um aneurisma. Este caracteriza-se por debilidade da
musculatura lisa da parede arterial, havendo distensão, podendo causar um AVE
hemorrágico. Outras causas freqüentes incluem-se a formação de trombos e de
êmbolos, traumas, hipertensão arterial e más formações das paredes vasculares
ou fragilidade vascular (LIMA et. al., 2008).
2.5 Tipos
Segundo
Umphred; Carlson (2007) há duas grandes categorias de AVC: isquêmico e hemorrágico
e ainda o ataque isquêmico transitório (AIT).
Os
autores caracterizam o AVE isquêmico por uma interrupção do fluxo sanguíneo
cerebral causada por um bloqueio parcial ou total de um ou mais vasos sangüíneos
e quando essas células do cérebro são desprovidas de oxigênio por poucos
minutos, ocorre a destruição das mesmas e morte do tecido cerebral (infarto
cerebral). Os AIT são causados por uma interrupção temporária do suprimento
sanguíneo ao encéfalo, e resultam na instalação repentina de comprometimentos e
limitações funcionais.
No
AVE hemorrágico, ocorre um sangramento anormal para dentro das áreas extra
vasculares do cérebro, em conseqüência de aneurisma ou trauma, sendo que a
hemorragia aumenta a pressão intracraniana, lesando os tecidos cerebrais e
restringindo o fluxo sangüíneo distal (MAZZOLA et al., 2007).
2.6 Fatores De Risco
Existem
várias condições que representam fatores de risco para o desenvolvimento do
AVE, sendo eles modificáveis (hipertensão arterial, obesidade, diabetes mellitus,
tabagismo e sedentarismo) e não modificáveis como, idade, sexo, raça, genética (OLIVEIRA
et. al., 2006).
Nas últimas décadas, estudos de métodos mais
acurados, têm identificado riscos não modificáveis bem como modificáveis para
AVE isquêmico e hemorrágico. A identificação e o controle de fatores de risco
visam à prevenção primária de AVE na população. Os fatores de risco para primeiro
AVE e recorrência estão apresentados na tabela abaixo (CHAVES, 2000).
Tabela 1 – Fatores de risco estabelecidos para AVE
Riscos
Modificáveis
Riscos não-modificáveis Outros
Hipertensão
Idade Alcool
Diabetes Sexo Anticorpo antifofoslipidio
Fumo
Raça
Homocisteína elevada
Fibrilação
Atrial Etnia Processos antiinflamatório
Outras
Doenças Cardíacas
Hereditariedade Infecções
Hiperlipidemias
Sedentarismo
2.7 Prevenção
A prevenção se dá pela
regulação da pressão arterial, boa dieta, atividade física regular, controle da
obesidade e não fumar. Além de observar os sinais precoces de advertência de
AVE ou sinais de aumento da pressão intracraniana. Dentre esses sinais
incluem-se, a diminuição da consciência, aumento da pressão de pulso, aumento
da freqüência cardíaca, respiração irregular, vômitos e pupilas não reativas (RADANOVIC,
2000).
2.8 Fisiopatologia
Uma vez ocorrida interrupção da circulação arterial,
segue-se a isquemia, liberando glutamato (neurotransmissor excitante) que
aumenta o metabolismo celular, conseqüentemente aumenta a entrada de cálcio
(Ca+), levando ao acúmulo de liquido entre os neurônios, tendo como
conseqüência um desequilíbrio iônico, levando a parada do funcionamento e morte
celular. Esse processo é caracterizado por uma área de penumbra ou área de
sofrimento celular, uma vez que, essas séries de alterações funcionais e
estruturais surgirão no território acometido (O' SULLIVAN, 2004).
Para Nonino; Kreulich (2008) por outro lado, as áreas vizinhas com
perfusão parcial, manterão um funcionamento ainda que anormal, mas
potencialmente reversível. Nesse caso, o edema cerebral inicia-se pós a
isquemia, onde em minutos chega a atingir o máximo em 3 a 4 dias, cedendo em 3
semanas, mas antes ocorre a elevação da pressão intracraniana.
2.9 Manifestações Clínicas
A disfunção motora é uma das sequelas mais frequentemente
encontrada e terapeuticamente resistente após um AVE. O déficit motor é
caracterizado por hemiplegia ou hemiparesia de um lado oposto ao lado da lesão
no hemisferio cerebral. Dentre os sinais e sintomas dessa doença podem ser
encontradas: disfunções sensoriais; disfunções do equilibrio e da coordenação;
disturbios da comunicação; deficits no campo visual; comprometimentos
cognitivos e intelectuais. Os sinais e sintoms clínicos específicos em cada
caso refletem a localização anatômica da lesão. O tamanho e extensão da lesão
determinam a gravidade do déficit (ERICKSON, 2004)
De acordo com O' sullivan;
Schitz (2004), a sintomatologia do AVE depende de vários fatores como: o local,
tamanho da área, natureza e as funções das estruturas envolvidas e a
disponibilidade de fluxo sanguíneo colateral. O conhecimento da anatomia
vascular cerebral é essencial para entender essas manifestações, dentre as mais
importantes temos o acometimento da Artéria Cerebral Anterior que resulta em
hemiparesia contralateral e a perda sensorial com maior comprometimento de
membro inferior, comprometimentos mentais, problemas com imitação e tarefas com
as duas mãos, apraxia, abulia (mutismo acinético), lentidão, atraso, falta de espontaneidade
e inação motora. Na oclusão da Artéria Cerebral
Posterior pode causar a hemianestesia (perda sensorial contralateral),
hemianopia contralateral homônima, prosopagnosia (dificuldade de nomear pessoas
quando as vê), dislexia (dificuldade de ler), agrafia (dificuldade de escrever),
problemas ao nomear (anomia), diferenciar cores, déficit na memória, movimentos
involuntários, síndrome talâmica (comprometimentos sensoriais).
O acometimento da Artéria
Cerebral Média resulta em hemianestesia da face e extremidade superior,
comprometimento motor na face extremidade superior, hemianopsia homônima
(cegueira na metade direita ou esquerda dos campos visuais de ambos os olhos),
distração, impulsividade, apraxia, compulsividade, afasia, dificuldade de
compreender as relações espaciais (ERICKSON, 2004).
2.9.1 Comprometimentos Diretos
Déficit somatosensitivos,
dor, déficits visuais e motores, hipotonia inicial e depois hipertonia, padrões
sinérgicos anormais, reflexos anormais, paresia, distúrbios de programação
motora, de controle postural e equilíbrio, perceptivos e cognitivos, afetivos, esfincterianos
e disfagia (LUCARELI et al., 2005).
2.9.2 Comprometimentos Indiretos
Segundo O' sullivan;
Schitz (2004), os comprometimentos indiretos são: Tromboembolismo venoso,
rachaduras de pele, diminuição da flexibilidade, subluxação de ombro, distrofia
reflexa simpática e descondicionamento físico.
2.10
Diagnóstico
De acordo com a Sociedade Brasileira de Doenças
Cerebrovasculares (2001), diante da suspeita clínica de AVE, sua confirmação é
necessária, através de alguns exames subsidiários fundamentais:
- Tomografia
computadorizada do crânio (TC): deve ser realizada prontamente e repetida em
24-48h nos casos em que não sejam evidenciadas alterações no exame inicial ou
de evolução insatisfatória. Objetiva identificar a natureza isquêmica ou hemorrágica
da doença vascular, informar a extensão e topografia da lesão, excluir possíveis
diagnósticos diferenciais e identificar complicações.
- Ressonância magnética encefálica (RM): com espectroscopia,
ou ponderada para perfusão ou difusão pode ser realizada; apresenta
positividade maior que da TC nas primeiras 24 horas para AVC isquêmico (AVCI),
especialmente no território vértebro-basilar.
- Investigação etiológica:
recomenda-se a realização do ultra-som Doppler de carótidas e vertebrais, avaliação
cardíaca com eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma com Doppler
transtorácico ou transesofágico, devendo
ser realizados antes da
alta hospitalar.
- Exame do líquido cefalorraquidiano (LCR) está
indicado nos casos de suspeita de hemorragia subaracnóidea (HSA) com TC
negativa e de vasculites inflamatórias ou infecciosas.
-
Angiografia cerebral deve ser realizada nos casos de HSA ou acidente vascular
cerebral hemorrágico (AVCH) de etiologia desconhecida.
2.11 Prognóstico
De acordo com Oliveira et
al. (2004), o prognóstico do AVE é extremamente variável, mas alguns
fatores são considerados de mau prognóstico, entre eles, os mais importantes
são idade avançada, o sexo masculino e raça negra de uma forma geral o
prognóstico da linguagem se define em 6 meses, enquanto o motor em 1 a 2 anos.
Após tais intervalos, usualmente os déficits existentes devem ser considerados
seqüela do evento ocorrido.
Nos pacientes
sobreviventes ao primeiro mês cerca de 10% têm cura espontânea, 10% ficam
severamente incapacitados, com alteração persistente do estado de consciência e
os 80% restantes, ficam com disfunção neurológica, necessitando de reabilitação
para diminuir seu estado de dependência e prevenir complicações (KAKCHARA,
2005).
Para Stokes (2002), o
prognóstico da doença depende do tipo de AVE e também da clinica desse
paciente, entrando fatores como cuidados domésticos, atuação do fisioterapeuta
e de outros profissionais, quando necessário. Esses cuidados e atendimentos
podem ajudar na melhora do quadro do paciente.
2.13 Tratamento
Gallo (2006), afirma que, o tratamento das doenças
vasculares em evolução constituem emergências em que são tomadas decisões à
resposta ao andamento dos sintomas clínicos do paciente onde inicialmente é
dirigida para avaliação e controle da respiração e função cardíaca e em casos
com evolução completa utiliza -se o uso da terapia antitrombótica.
2.14 Tratamento Fisioterapêutico
2.14.1 Fase Aguda
A fisioterapia na fase aguda para O'
sullivan; Schitz (2004) deve ter como objetivo melhorar a consciência em
relação ao lado hemiplégico e da função motora (controle e aprendizagem
motora). Devendo incluir estratégias de aprendizado motora, como feedback
intrínseco (fazer o paciente ver seu próprio movimento), feedback extrínseco (auxílio de comandos
verbais e manuais). Cinesioterapia iniciando com padrão sinérgico, evoluindo
para padrão não sinérgico e FNP (facilitação neuro-proprioceptiva), primeiro
evitando padrões sinérgicos.
2.14.2 Fase Crônica
Zétola et. al. (2001) defende que, o tratamento da fase
crônica necessita muitas vezes de uma equipe multidisciplinar, envolvendo médico,
fisioterapeuta, fisiatra, fonoaudiólogo, nutricionista, nutrólogo, psicólogo,
terapêuta ocupacional e outros.
Segundo Kisner; Colby (1998), o
tratamento fisioterapêutico na fase crônica do AVE, engloba a fisioterapia
motora e respiratória, profilaxia de escaras de decúbito, profilaxia de
processos tromboembólicos, principalmente trombose venosa profunda devem ser
iniciados precocemente. Considerando-se que no campo do tratamento específico,
recentes avanços podem definir as opções, baseado principalmente no tipo do
AVE, tempo de evolução, idade e condições clínicas do paciente.
A fisioterapia deve objetivar produzir uma redução acentuada na ocorrência
de complicações secundárias, principalmente sobre a função respiratória,
problemas circulatórios e rigidez articular, bem como encurtamento muscular
numa fase inicial, possibilitando a uma proporção muito maior de pacientes
tornarem-se completamente ou quase independentes na vida diária, ainda no sentido
das complicações secundárias (RIBEIRO, 2004)
Ferreira et. al. (2008), utilizaram técnica de
Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva (PNF) para membro superior,
mobilização articular em nível de escápula, punho e mão, tornozelo, joelho e
quadril, treinamento de transferência (deitado para sentado, sentado para em pé
e vice-versa), alongamento da musculatura posterior da perna e cadeia
ântero-interna do braço utilizando recursos como toalhas e faixas, treinamento
de equilíbrio corporal utilizando varas, treinamento do movimento fino das mãos
com atividades como levar o copo de água a boca, transferir pequenos objetos de
um lugar para outro, Tape, imersão da mão em água gelada para diminuir a
espasticidade que posicionava o punho e dedos em flexão. Drenagens linfáticas
também foram executadas para minimizar o edema e efeitos a ele associados e
orientações sobre a postura e cuidados com o membro inferior edemaciado.
Horn,
et al. (2003) salientam que a
cinesioterapia através da mobilização da escápula e do tronco são importantes
para amenizar a artralgia do ombro subluxado. Já Corrêa, et al. (2007),
salientam que a eletroestimulação também é importante no tratamento tanto da
subluxação ou da luxação do ombro como no quadro álgico do ombro do paciente
sequelado de AVE.
Nos estudos de Barato et
al. (2008), através da representação visuo-espacial da ação ou
representação visual de um membro em movimento, onde o resultado diante da
Ressonância Magnética (RM), evidenciou estimulações bilaterais, bem como
ativações em torno da área lesionada pela isquemia cerebral.
De acordo com Oliveira et al. (2004), a
hidroterapia é bastante indicada para o tratamento do paciente acometido por
AVE, uma vez que, o método dos Anéis de Bad Ragaz que tem como alguns de seus
objetivos restaurar padrões normais de movimento e treino da capacidade
funcional do corpo como um todo, e o Método Halliwick que possui fases de
aprendizado que estão em uma ordem pela qual o córtex cerebral aprende todo
movimento físico. Ambos aplicados com repetição de movimento.
3. REFERÊNCIAS
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