quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Artigo de Revisão Efeitos da estimulação elétrica neuromuscular em crianças com paralisia cerebral: Revisão Sistemática.
Effects of neuromuscular electrical stimulation in children with cerebral palsy: a Systematic review.
Roberta Delasta Lazzari(1), Nathalia de Almeida Carvalho Duarte(2), Leandro Henrique Grecco(3), Claudia
Santos Oliveira(4), Renata Calhes Franco(5), Luanda André Collange Grecco(2).
Mestrado e doutorado em Ciências da Reabilitação, Universidade Nove de Julho.
Resumo
Introdução: Na paralisia cerebral (PC), a execução do movimento durante a função depende da interação entre músculos
espásticos e antagonistas enfraquecidos. A fim de melhorar o equilíbrio muscular muitos tratamentos têm sido
propostos na literatura. Entre os tratamentos disponivéis, a estimulação elétrica neuromuscular (EENM), vêm recebendo
lugar de destaque nos últimos anos. Objetivo: O objetivo do presente estudo foi determinar por meio de uma
revisão sistemática os efeitos da EENM no tratamento de crianças e adolescentes com PC. Método: Foi realizada uma
pesquisa na rede internacional nos bancos de dados de acordo com os seguintes critérios de inclusão: (1) desenho: ensaio
clínico controlado aleatorizado; (2) população: crianças e adolescentes com PC; (3) intervenção: EENM; (4) grupo
controle com intervenção diferente ou sem intervenção; (5) desfecho: melhora da função motora e desempenho da
marcha. Resultados: Foi encontrado um total de quatro artigos que preencheram os critérios de inclusão e foram utilizados
nesta revisão. A variação da classificação dos artigos na escala PEDro foi 2/10 e 8/10. Nos estudos analisados,
foram observadas melhora nos aspectos cinemáticos e espaço-temporais da marcha, na qualidade de vida e na diminuição
da hipertonia adutora. Conclusão: Devido ao número limitado de estudos encontrados e a variedade de protocolos
utilizados, não foi possível identificar evidências conclusivas sobre esta modalidade de treinamento.
Palavras Chave: Paralisia cerebral, criança, marcha, estimulação elétrica.
Abstract
Introduction: The performance of the movement during function depends on the interaction between antagonists and
spastic muscles weakened. In order to improve the balance where the PC muscle, many treatments have been proposed
in the literature. Among the treatments in hand, neuromuscular electrical stimulation (NMES), have received
prominent place in recent years. Objective: The objective of this study was to determine through a systematic review
of the effects of ES in the treatment of children and adolescents with CP. Method: Research was carried out in the international
network in the database according to the following inclusion criteria: (1) design: randomized controlled
trial, (2) population: children and adolescents with CP, (3)intervention: electrical stimulation neuromuscular (4) control
group with no intervention or different interventions, (5) outcome: improvement in motor function and gait performance.
Results: We found a total of four articles that met the inclusion criteria and were used in this review. The
change in classification of items on the PEDro scale was 2/10 and 8/10. In the studies analyzed, we observed improvement
in aspects of kinematic and spatiotemporal gait, the quality of life and decreased adductor hypertonicity. Conclusion:
Given the limited number of studies found and protocol variability, it was not possible to identify conclusive
data on this training modality.
Keywords: Cerebral palsy, child, gait, electrical stimulation.
Recebido em ________________________________
1. Fisioterapeuta. Especialista em fisioterapia neurofuncional com ênfase em pediatria, Universidade Nove de Julho, São Paulo, SP,
Brasil. e-mail: robertalazzari@hotmail.com
2. Fisioterapeuta. Mestranda em ciências da reabilitação, Universidade Nove de Julho, São Paulo, SP, Brasil. e-mail: natycarvalho_fisio@
hotmail.com e luandacollange@hotmail.com
3. Fisioterapeuta. Mestrando em farmacologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. e-mail: leandrohgrecco@hotmail.com
4. Fisioterapeuta. Docente do curso de mestrado e doutorado em ciências da reabilitação, Universidade Nove de Julho, São Paulo, SP,
Brasil. e-mail: csantos@uninove.br
5. Fisioterapeuta. Docente do curso de fisioterapia, Universidade Nove de Julho, São Paulo, SP, Brasil. e-mail: renatacalhes@uninove.br
Endereço para correspondência:
Roberta Delasta Lazzari - Rua Cláudio, 200 – Água Branca CEP- 05043-000 – São Paulo – SP – Brasil – Fone: 55 11 38620727 -
78761580.
112
Ter Man. 2012; 10(47):111-116
Estimulação elétrica muscular na PC.
Introdução
A paralisia cerebral (PC), desordem do desenvolvimento
motor secundária a lesão encefálica primária, resulta
em comprometimentos músculoesqueléticos e limitações
funcionais(1). O tipo espástica é a forma mais
comum da PC, sendo a espasticidade uma das principais
causas do comprometimento da função e do crescimento
muscular longitudinal, resultando em deformidades
ortopédicas(2-9).
A função motora da criança com PC, atualmente
é classificada pelo Sistema de Classificação da Função
Motora Grossa (Gross Motor Function Classification System
– GMFCS)(10-13). A execução do movimento durante
a função depende da interação entre músculos espásticos
e antagonistas enfraquecidos(14). A fim de melhorar
o equilíbrio muscular nos casos de PC, muitos tratamentos
têm sido propostos na literatura. Entre os tratamentos
disponivéis, a estimulação elétrica neuromuscular
(EENM), vêm recebendo lugar de destaque nos últimos
anos(14-17).
A EENM aplicada no ponto motor do músculo, com
intensidade suficiente para produzir contração muscular
visível, vêm sendo estudada com o intuito de analisar
os seus efeitos terapêuticos(16-19). Pode ser realizada
durante uma atividade funcional (estimulação elétrica
funcional – FES), como a estimulação dos músculos
dorsiflexores durante a fase de balanço da marcha. Um
dos príncipios que sustentam a sua utilização na reabilitação
neurológica infantil é que a EENM aplicada no
músculo antagonista, além de auxiliar no seu fortalecimento,
pode inibir reciprocadamente o músculo agonista
espástico(17-19).
No entanto, sua aplicabilidade clínica continua a ser
um debate na literatura. Poucas são as evidência concretas
sobre seus efeitos na população pediátrica com
PC, considerando-se principalmente, o nível de função
motora desempenhado pela criança.
O objetivo do presente estudo foi determinar por
meio de uma revisão sistemática os efeitos da EENM no
tratamento de crianças e adolescentes com PC.
Método
Foi realizada uma pesquisa na rede internacional de
computadores nos bancos de dados MEDLINE, CINAHL,
EMBASE, PEDro, LILACS e SciELO em fevereiro de 2012,
sem restrição de idioma e limite de data de publicação,
para pesquisa com o descritor paralisia cerebral (cerebral
palsy) combinado com estimulação elétrica (electrical
stimulation) e estimulação elétrica neuromuscular
(neuromuscular electrical stimulation).
Durante a seleção dos estudos, a análise inicial foi
realizada por meio da avaliação dos títulos e dos resumos,
por dois pesquisadores de forma independente e
cegada. Quando houve divergência nessa fase inicial de
seleção, um terceiro avaliador foi convocado para realizar
a análise. Quando o título e o resumo não foram esclarecedores,
o artigo foi lido na íntegra novamente por
dois examinadores para eliminar incertezas.
Os artigos identificados na busca inicial foram avaliados
de acordo com os seguintes critérios de inclusão:
(1) desenho: ensaio clínico controlado aleatorizado; (2)
população: crianças e adolescentes com PC; (3) intervenção:
estimulação elétrica neuromuscular; (4) grupo
controle com intervenção diferente ou sem intervenção;
(5) desfecho: melhora da função motora e desempenho
da marcha. Foram excluídos estudos pilotos, que envolvessem
fortalecimento muscular como desfecho secundário
de exercício aeróbio ou realizado por meio de estimulação
elétrica neuromuscular.
Os estudos clínicos controlados aleatorizados incluídos
no estudo foram analisados quanto à qualidade
metodológica pela escala PEDro, que apresenta 11
itens destinados à avaliação da validade interna e informação
estatística de estudos controlados aleatorizados.
Cada item adequadamente satisfeito (exceto o item 1,
relacionado à validade externa) contribui com um ponto
ao escore máximo de 10 pontos. Foi utilizada a pontua-
ção oficial dos artigos descrita no endereço eletrônico da
base de dados. Caso o manuscrito não estivesse presente
na base de dados, a mesma seria realizada por dois
pesquisadores de forma independente e cegada.
Os artigos selecionados foram lidos na íntegra de
forma a serem utilizados como referencial e marco te-
órico para discussão e ampliação dos conceitos sobre o
tema abordado. Uma análise descritiva e comparativa
dos resultados foi realizada20-21, devido à variabilidade
dos desfechos e métodos de avaliação dos resultados.
Resultados
A estratégia de busca inicial considerando as bases
de dados CINAHL, EMBASE, PEDro, LILACS e SciELO,
retornou 86 títulos e resumos, sendo que 36 eram ensaios
clínicos controlados. O primeiro examinador identificou
seis possíveis artigos e o segundo avaliador identificou
quatro. Após leitura dos resumos, os quatro artigos
foram selecionados para leitura na íntegra. Considerando
duplicidade de artigos nas bases, foi encontrado
um total de quatro artigos que preencheram os critérios
de inclusão e foram utilizados nesta revisão. Os estudos
incluídos investigaram a utilização da EENM e da FES em
crianças e adolescentes com PC.
Os quatro estudos envolveram um total de 133 pacientes,
sendo 71 de grupos experimentais, e 62 de grupos
controles. O número de participantes envolvidos em
cada estudo variou entre 14 e 53. A variação da classificação
dos artigos na escala PEDro foi 2/10 e 8/10, com
média de 4,5±2,5(22-25).
No estudo de Kerr et al(22), 60 crianças foram triadas
para participar do estudo e divididos de forma aleá-
toria em três grupos submetidos a estimulação elétrica
113
Ter Man. 2012; 10(47):111-116
Roberta D. Lazzari, Nathalia A. C. Duarte, Leandro H. Grecco, et al.
domiciliar da seguinte maneira: EENM (n=18), TES (estimulação
elétrica limiar; n=20), Placebo (n=22), mas
apenas 53 crianças concluíram o estudo. No estudo realizado
por Ho et al(23), as 15 crianças (nove com PC e
seis com desenvolvimento típico - DT) foram divididas
em três grupos e submetidas a 30 coletas de análise tridimensional
da marcha, em um único dia de sessão experimental
de FES no músculo gastrocnêmio.
Cinco crianças realizaram 15 coletas de análise tridimensionais
da marcha, sendo 15 coletas com FES seguida
por 15 sessões sem FES; quatro crianças realizaram
15 coletas sem FES seguidas de 15 coletas com o
FES; e seis crianças com DT realizaram 30 coletas sem
FES. No estudo realizado por Van de Linder et al(24) participaram
14 crianças divididas em dois grupos de sete
crianças. O grupo experimental recebeu estimulação
nos músculos dorsiflexores, duas semanas por meio da
EENM e oito semanas por meio de FES. O grupo controle
recebeu atendimento de fisioterapia convencional. No
estudo realizado por Al-Abdulwahab & Al-Khatrawi(25) 51
crianças participaram do estudo divididas em três grupos.
O grupo experimental foi constituído por 21 crian-
ças com PC que receberam três protocolos de EENM. O
grupo controle foi formado por dez crianças com PC e o
grupo de DT por 20 crianças.
O tempo de intervenção, variou de uma única sessão
há 16 semanas(22-25). O número de sessões semanais
variou entre uma e seis sessões por semana, com
um tempo mínimo estimado de dez minutos e máximo
de oito horas. A estimulação elétrica (EE) não foi protocolada
em nenhum dos estudos. Os protocolos e os critérios
de progressão da EE foram descritos satisfatoriamente
em três estudos. As principais características dos
estudos estão representadas na Tabela 1, onde os resultados
foram apresentados como o sinal “+” quando positivo
para o grupo experimento, “-“ quando negativo
para o grupo controle e, “0” quando não houve diferen-
ça entre os grupos.
No estudo de Kerr et al(22) foi observado melhora no
estilo de vida com avaliação do Questionário LAS(LAQCP).
No estudo realizado por Ho et al(23), não foram observadas
melhoras na velocidade da marcha, no comprimento
do passo e na frequência da passada. No estudo
realizado por Van de Linder et al(24) observou-se melhora
nos parâmetros cinemáticos da marcha e no questionário
familiar. No estudo realizado por Al-Abdulwahab
& Al-Khatrawi(25), houve melhora nos parâmetros espa-
ço-temporais da marcha e diminuição da hipertonia adutora.
Discussão
Os estudos analisados nessa revisão apresentaram
poucas evidências do uso da EE aplicada em grupos
musculares de membros inferiores sobre o desempenho
funcional durante a marcha e a função motora grossa de
criança com PC. Os estudos analisaram um grupo consideravelmente
pequeno de crianças e efeitos positivos
foram observados na marcha.
Todos os estudos analisados nessa revisão utilizaram
como metodologia ensaio clínico do tipo controle
aleatorizado, comparando duas ou mais intervenções(22-
25). Esse tipo de estudo permite avaliar os efeitos da intervenção
e mudanças apresentadas nos participantes.
No entanto, não houve homogeneidade entre os estudos
quanto ao tipo de EE, grupo muscular estimulado
ou período de intervenção, limitando uma análise comparativa.
Os estudos não realizaram períodos de acompanhamento
após o uso da EE, sendo assim não é possível
saber se os poucos efeitos adquiros por meio da EE
é mantido após o termino da intervenção.
No estudo realizado por Kerr et al(22), todos os participantes
tinham diagnóstico de PC. A EE foi realizada
nos músculos quadríceps por 16 semanas. Um grupo foi
submetido a EENM, outro a FES e o controle a FES placebo.
Foi observado melhora na qualidade de vida relatado
pelos familiares utilizando o questionário LAS(LAQCP),
porém não houve melhora significativa para pico de
torque de quadríceps, na função motora grossa (Gross
Motor Functional Measure) e nos parâmetros espaçotemporais
da marcha. Diferentes resultados foram encontrados
por van de Linden et al(26) e Al-Abdulwahab
& Al-Khatrawi.(25) Por meio da EENM+FES dos dorsiflexores
do tornozelo(26) e da EENM dos músculos glúteos
médios,(25) os autores observaram melhora dos parâmtros
cinemáticos e espaço-temporais da marcha.
É importante ressaltar que os estudos inclusos
nesta revisão envolveram a utilização da EE no ambiente
domiciliar. Apenas Ho et al(23) conduziram o estudo
em ambiente terapêutico, mas o estudo envolveu uma
única sessão experimental. Este fator gera margem para
um viés metodologico que se refere ao adequado cumprimento
dos protocolos pelos responsáveis das crian-
ças. Não é possível afirmar se o posicionamento dos eletrodos,
parâmetros, tempo e frequência da aplicação
foram seguidos adequadamente. Novos estudos devem
ser efetuados considerando o uso das diferentes modalidades
de EE realizada em ambiente terapêutico, com
supervisão de um fisioterapeuta e como recurso a ser
utilizado em associação com os exercícios terapêuticos
funcionais.
Outro aspecto importante que deve ser discutido é
o número de participantes dos estudos e o grau de comprometimento
motor dos mesmos. As amostras são relativamente
pequenas (mínimo de 14 e máximo de 53
participantes) divididas nos grupos experimento e controle.
Apenas no estudo de Kerr et al(22) foi efetuado um
cálculo amostral para composição da sua amostra. Desta
forma se mostra necessário que estudos com tamanho
de amostra adequado sejam realizados para que o efeito
da EE seja de fato detectado.
114
Ter Man. 2012; 10(47):111-116
Estimulação elétrica muscular na PC.
Tabela 1. Apresentação dos resultados
Estudo Ano PEDro Amostra Grupos Intervenção Critérios de Progressão Instrumento/Medida Resultado
Experimental Experimental Controle
Kerr et al. 2006 8 n=60; n=18 EENM(PC); n=20 TES(PC); n=22(PC) Domiciliar; Aumento da Intensidade Pico de Torque de Quadríceps, 0
n final=
53 Duração: 1 hora, Duração: 8 hs por noite, Duração: 8 hs por noite 16 semanas, EENM: toda fase do tto medido com Dinamômetro Isoci- nético;
Intensidade: Variável no Intensidade: <10 mA Intensidade: 0 5 vezes por semana TES: início de cada sessão Questionário de Estilo de Vida LAS +
limite máximo do paciente (limiar sensorial) (grupo placebo) (a partir do LAQ-CP);
n final=17 n final=17 n final=19 GMFM 0
Experimental Experimental Controle
Ho et al 2006 4 n=15 n=5(PC) n=4(PC) n=6 (DT) 1 sessão Impulso +
15 testes com FES 15 testes sem FES sem FES 30 testes Rigidez 0
15 testes sem FES 15 testes com FES Comprimento da passada 0
Cadência 0
Velocidade 0
Experimental Controle
Van de
Linder et al 2008 4 n=14 n=7 (PC)(DF ou Quadr) n=7 (PC) Domiciliar 1ª semana 30 min a 40Hz GGI após tto 0
EE 2 semanas + fisioterapia habitual EENM(EE) 2 semanas; (+) 30 min a 10Hz GGI durante a marcha +
FES 8 semanas 6 vezes por semana 2ª semana 60 min a 40 Hz
1 hora (+) aumento da Intensi- dade Questionário Familiar +
FES 8 semanas acordo com a tolerância e
6 vezes por semana contração adequada
6 ou mais horas
Experimental Controle Controle
Al-Abdulwahab
& 2009 2 n=51 n=21(PC) n=10(PC) n=20 (DT) 1)NMES isométrica glúteo 3 avaliações Diminuição da Hipertonia Adutora +
Al-Khatrawi 3 Protocolos de NMES médio bilateral 2 a 3 min + Avaliação Inicial (Escala de Ashworth Modificada)
NMES isométrica bilateral Avaliação após 2 semanas Análise da marcha +
por 2 min sentado Avaliação após 8 semanas
levanta e teste
de caminhada
2)NMES isométrica
bilateral sentado levanta
e realiza 15 min de
caminhada e senta ao final
3 vezes por dia por 7 dias
3)NMES isométrica glúteo
médio bilateral 10min
NMES isométrica
bilateral sentado levanta
e realiza teste de
caminhada de 470 cm
vira e retorna e senta
L
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