quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Coquetel "do dia seguinte" pode evitar infecção pelo HIV em até 72 horas; entenda

Hoje, duas unidades de pronto-atendimento (UPAs) oferecem o tratamento em Salvador: Itapuã e Marback
Carmen Vasconcelos (carmen.vasconcelos@redebahia.com.br)
Atualizado em 25/11/2015 07:48:52
  
Vítimas de acidente ocupacional, violência sexual ou mesmo pessoas que tenham tido casos de relação sexual consentida com suspeita de contaminação pelo HIV podem tomar o coquetel de modo preventivo, mesmo sem a confirmação de Aids. Hoje, duas  unidades de pronto-atendimento (UPAs)  oferecem o tratamento em Salvador: Itapuã e Marback.

A coordenadora do Programa de DSTs, Aids e Hepatites da prefeitura, Flávia Guimarães,  ressalta que, no posto de Itapuã, ainda há preparação para assistir crianças que necessitem tomar o coquetel preventivo.
Unidade de Itapuã e a do Marback são especializadas no PEP
(Foto: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)
Com o nome de Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Profilaxia Antirretroviral Pós-Exposição de Risco para Infecção pelo HIV (PEP), o coquetel preventivo vem sendo oferecido na capital baiana e São Paulo de modo pioneiro desde o período da Copa do Mundo.

“Com o novo protocolo, ampliamos a assistência, reduzindo as chances de novas contaminações e mortes”,  explica Flávia Guimarães.
Segundo ela, a expectativa inicial era que, no início de setembro, o coquetel preventivo estivesse implantado em dez UPAS  da cidade. Mas uma série de fatores concorreram para o atraso do esquema de profilaxia pós-exposição (PEP) ao HIV. 

“Estamos quebrando paradigmas e isso desperta algumas polêmicas profissionais, além disso, o momento econômico também dificultou o processo, em virtude da alta do dólar”, observou a coordenadora. 

Resistência
Além das questões econômicas que impactam na compra da medicação, nas dificuldades de capacitação dos recursos humanos, há muita resistência por parte da própria comunidade, acrescentou ela. Para Flávia, no entanto, até janeiro, as unidades na capital baiana já estarão atendendo a esses pacientes em regime de emergência.

Para a implantação do serviço, todos os profissionais das unidades passaram por treinamento. Do segurança ao corpo clínico. “Adotamos o padrão ouro para atendimento desses pacientes, o que significa dizer que quem chega com suspeita precisa ser atendido num prazo máximo de duas horas”, esclarece a enfermeira responsável pelo atendimento desses pacientes na UPA de Itapuã, Flávia Carneiro. 

O protocolo do Ministério da Saúde  recomenda que os medicamentos utilizados para o tratamento sejam ministrados até 72 horas após a exposição ao vírus. O ideal é que seu uso seja feito nas primeiras duas horas após a exposição ao risco. 

Ao todo, são 28 dias consecutivos de uso dos quatro medicamentos antirretrovirais previstos no novo protocolo (tenofovir +  lamivudina + atazanavir + ritonavir). 

“A grande vantagem desse protocolo é a simplificação e unificação da PEP em um esquema único de medicamentos. Com isso, não será preciso um especialista em Aids para dispensar a PEP. Isso não só  vaiampliar o acesso à população de forma geral, mas também facilitar os procedimentos para os profissionais de saúde como um todo”, explicou o diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita.

Números
Na Bahia, embora alguns Serviços de Atenção Especiais (SAEs) já tenham sido treinados para aplicação do protocolo, ainda não existe uma previsão de implantação da conduta. 
“Independentemente da implantação do PEP, a Bahia continua trabalhando nas ações de conscientização e prevenção, pautando o trabalho na prática combinada da sensibilização para o sexo seguro, a testagem regular da presença do HIV e a adesão ao tratamento”, esclarece a coordenadora estadual do Programa de DSTs, Aids e Hepatites Virais, Nilda Nunes Ivo.
Os municípios baianos que mais preocupam em relação ao índice de contaminação é Salvador e Porto Seguro. Enquanto o número de casos é de 12,9 por 100 mil habitantes, em Salvador, a média no estado é de 24,2 por 100 mil habitantes. Já Porto Seguro tem21,2 por 100 mil habitantes. A Bahia tem uma taxa de mortalidade de 3,1 por 100 mil por ano.

Neuropediatra diz que casos de microcefalia indicam uma nova doença

http://www.correio24horas.com.br/

Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de casos de microcefalia saltou de 147 para 739 neste ano
Agência Brasil
Atualizado em 25/11/2015 07:58:50
  
Sem estudos em toda a literatura médica que relacionem a infecção de gestantes pelo vírus Zika com o nascimento de crianças com microcefalia, a neuropediatra Vanessa Van der Linden defende que os novos casos dessa deformidade no cérebro revelam uma nova doença, já que fogem do padrão conhecido. 
Oito estados do Nordeste e Goiás têm 739 casos suspeitos de microcefalia
(Foto: EBC)
“Se é provocada pelo Zika ou por outro vírus, ou outro agente, não sabemos. O que posso dizer é que os casos não seguem o padrão que a gente vê nas outras pacientes que têm infecção congênita e filhos com microcefalia”, explicou Vanessa, do Hospital Barão de Lucena, presidente da Associação de Assistência à Criança Deficiente do Recife.
Ela foi a primeira médica a buscar a Secretaria de Saúde de Pernambuco para alertar sobre o aumento do número de casos de crianças com o crânio menor que o normal. “Um dia, cheguei à UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e tinha três casos de crianças com a cabecinha assim, isso me deixou intrigada, normalmente a gente via uma a cada mês ou a cada dois meses”, relatou.
Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de casos de microcefalia saltou de 147, em 2014, para 739 neste ano, a maioria (487) em Pernambuco. A microcefalia é uma má-formação congênita, em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada. 
A neuropediatra esclarece que essa condição pode ter diversas causas, como agentes químicos e infecções por toxoplasmose ou pelo citomegalovírus. Cada causador provoca um quadro típico, como alteração na visão, na audição ou em outros órgãos.
Segundo a médica, em muitos desses novos casos os recém-nascidos têm comprometimento do coração, “mas a amostra ainda é muito pequena para dizer que está relacionado à nova doença”.
À medida que os casos foram chegando, a neuropediatra pedia exames para toxoplasmose e para citomegalovírus, e todos deram negativo. A especialista diz que recebeu informações de casos parecidos fora do Nordeste e que tudo deve ser bem investigado.
Vanessa participou nessa terça-feira (24) de um seminário para profissionais de saúde do Distrito Federal, em Brasília. Segundo ela, há casos de crianças com microcefalia que se desenvolvem, têm filhos, mas que em outros casos o bebê tem muitas convulsões e por isso pode não ter o desenvolvimento adequado. 

Caso de Charlie Sheen 'mostra que preconceito é maior obstáculo para combate à Aids', diz especialista

BBC
A revelação do ator Charlie Sheen, que admitiu ser HIV positivo, reanimou o debate a respeito do vírus, que ataca o sistema imunológico do corpo e pode levar ao desenvolvimento da Aids – doença que ainda carrega forte carga de preconceito, três décadas depois do início da epidemia.
Para o vice-coordenador do Programa de Aids das Nações Unidas (Unaids), o brasileiro Luiz Loures, o maior obstáculo hoje ao fim da epidemia é justamente a discriminação. Segundo ele, embora os testes e o tratamento estejam disponíveis, muita gente continua sem acesso a eles por causa do estigma e do preconceito.
Um novo relatório divulgado nesta terça-feira pelo Unaids revela que os grupos mais duramente atingidos pela doença são justamente os que sofrem mais discriminação: as mulheres e meninas da África, as trabalhadoras do sexo da Ásia, os usuários de drogas injetáveis do leste da Europa e os gays do mundo todo.
"Não vamos conseguir vencer a Aids apenas com comprimidos", afirmou Loures. "Precisamos voltar a falar sobre a doença."
BBC Brasil - O que o novo relatório da Unaids apresenta?
Luiz Loures - Este relatório é diferente, traz uma narrativa nova para a epidemia, chama a atenção para as epidemias locais para tentarmos entender melhor os contextos específicos.
É o caso, por exemplo, da epidemia no Sul do Brasil, ligada aos usuários de drogas injetáveis. Se essas realidades não são conhecidas, é nesses locais que a epidemia pode voltar a crescer. Temos que ser capazes de captar essas diferentes dinâmicas.
A Aids hoje vive uma situação única: temos a ciência e os instrumentos para acabar com a epidemia, mas nem todos se beneficiam da mesma forma deles. Por isso, apesar de termos todos os instrumentos, a epidemia cresce em alguns lugares e vemos o risco de intensificação da epidemia, a despeito de todos os avanços.
GettyImage copyrightGetty
Image captionBrasileiro diz que existem ferramentas para enfrentar a Aids, mas nem todos se beneficiam delas
BBC Brasil - O preconceito às populações mais vulneráveis ainda é um problema?
Loures - Sim, exatamente. Progredimos muito do ponto de vista biomédico, do acesso ao tratamento. Hoje, temos 16 milhões de pessoas em tratamento, quando o nosso objetivo até o fim deste ano era ter 15 milhões de pessoas em tratamento. Mas não conseguimos avançar em questões fundamentais, como a discriminação em serviços de saúde.
BBC Brasil - Ainda há muita discriminação nos hospitais? Isso acontece no mundo todo ou apenas nos países mais pobres?
Loures - No mundo todo. É como se estivéssemos na época pré-tratamento. Quando perguntamos para pessoas das populações consideradas mais vulneráveis (homens gays, usuários de drogas, trabalhadoras do sexo) é quase unânime reclamarem da discriminação nos serviços de saúde. E isso em qualquer lugar do mundo, mesmo nos países desenvolvidos.
É um absurdo que depois de três décadas de epidemia, a discriminação persista inalterada nos serviços de saúde. Parece a época em que eu atendia soropositivos e não conseguia sair do hospital porque os meus colegas se recusavam a por a mão nos meus pacientes. Essa atitude negativa em relação ao HIV persiste na sociedade.
BBC Brasil - A discriminação impede, por exemplo, que mais pessoas sejam testadas?
Loures - Sim, claro. Hoje, temos 16 milhões de soropositivos em tratamento. Mas temos 22 milhões de pessoas que não recebem os remédios, embora eles estejam disponíveis. Mais de 50% dessas pessoas não sabem que têm o vírus. O teste é um ponto fundamental. Precisamos fazer com que essas pessoas tenham acesso ao teste.
E um dos maiores entraves a esse acesso é o serviço de saúde discriminatório. Temos que desenvolver estratégias para levar esse teste para onde as pessoas estão: no trabalho, nas escolas.
BBC Brasil - O senhor acha que houve uma resposta negativa, por exemplo, ao ator Charlie Sheen que, na semana passada, revelou ser soropositivo?
ReutersImage copyrightReuters
Image captionPara Loures, reação após Charlie Sheen revelar que é soropositivo lembra década de 1980
Loures - Sim, parece que estamos vivendo de novo nos anos 1980. Na verdade, a reação da imprensa americana foi pior do que o que víamos nos anos 1980. A resposta de muitos colegas dele foi preconceituosa. Esse episódio mostra de uma forma muito clara que a discriminação está mais viva do que nunca, que não avançamos muito nesse campo.
BBC Brasil - Houve muitos avanços nos últimos anos em relação aos direitos dos homossexuais, por exemplo. Vários países aprovaram o casamento gay. A sensação que se tem é de que avançamos, sim, nessa questão do preconceito. Por que é diferente com a Aids?
Loures - Bem, é um vírus, não vamos diminuir a importância disso. Sei que avançamos muito em algumas áreas de discriminação, mas em relação ao HIV isso não ocorreu. Vejo de forma positiva a questão do casamento igualitário. Mas não falamos mais sobre o HIV como falávamos no passado. Então, há um avanço contra a discriminação, mas é um avanço seletivo. Precisamos voltar a falar sobre a epidemia.
BBC Brasil - Com todos os avanços, ainda é uma epidemia muito grave...
Loures - Sim, a Aids é a principal causa de morte entre mulheres em idade reprodutiva no mundo. É a primeira causa de morte entre adolescentes na África Subsaariana – a segunda no mundo. E a discriminação é um grande problema. Por exemplo, na África, o número de meninas infectadas é muito maior que o de meninos. Isso não é uma questão biológica. É uma questão de gênero. São 5 mil meninas infectadas por semana na África Subsaariana. Se não discutirmos o papel de predador dos homens em relação às mulheres, por exemplo, não vamos resolver o problema. Não é só com comprimido que eu vou resolver a questão. Não somente.
BBC Brasil - Mas por que a questão da discriminação chama mais atenção agora?
Loures - Fica mais evidente justamente porque determina os grupos que ficaram para trás: as mulheres jovens na África, as trabalhadoras sexuais na Ásia, os usuários de drogas na Europa do leste. Os homens gays no mundo todo.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Neurocirurgião conta como dedicou-se ao estudo do sono após sofrer um AVC

Médico fundador do Instituto do Sono de Santos (SP), Dr. Faustino Pacheco Filho, fala sobre a relevância da população conhecer as consequências dos distúrbios do sono

Insônia, ronco e sonolência excessiva são queixas comuns de muitas pessoas.
Segundo pesquisa* do laboratório farmacêutico Roche, divulgada em maio de 2009, mais da metade dos brasileiros (52,9%) declara ter problemas com o sono (16,3% dormem mal e 36,6% às vezes dormem bem ou mal).

Distúrbios tão frequentes que, em geral, não motivam uma visita ao médico, e além de consequências como irritabilidade e falta de concentração, podem levar a resultados mais graves como hipertensão, depressão, isolamento social ou mesmo à morte.

Em entrevista ao Guia-me, o neurocirurgião Faustino Pacheco Filho conta como surgiu seu interesse em estudar os distúrbios do sono e testemunha o que o motivou a criar o Instituto do Sono de Santos.
O médico cita os principais problemas que interferem no repouso principal do dia, fala sobre quantidade e qualidade do sono, explica o exame de polissonografia, e reitera a importância da população estar atenta aos distúrbios.

Guia-me: Como surgiu o interesse de dedicar-se ao estudo do sono? Soube que uma história pessoal o estimulou. Gostaria que o senhor contasse um pouco a respeito.Dr. Pacheco: Realmente, o meu interesse por sono surgiu em decorrência do fato de eu ser médico, com especialidade em neurocirurgia e ter sido acometido no ano de 2000 de um AVCH ( acidente vascular cerebral hemorragico AVCH) que me deixou com sequelas, uma hemiplegia à esquerda.
Isto me impossibilitou para a cirurgia.
A princípio, fiquei muito decepcionado com o fato, deprimido mesmo, e pensava: o que fazer?
Tenho três filhos, esposa para sustentar, como vou fazer para dar continuidade a minha vida?
Sempre fiu cristão, mas a verdadeira fé só descobri neste momento.
Deus não nos desampara! Foi quando pensei: vou trabalhar com os distúrbios do sono, mesmo porque fui vítima de um deles, a Síndrome da Apnéia e Hipopnéia Obstrutiva do Sono.
Fui estudar a respeito dos distúrbios do sono e aqui estou trabalhando, e muito, para evitar que como eu outras pessoas possam adoecer.

Guia-me: Como nasceu o Instituto? O senhor atua ainda como neurologista?
Dr. Pacheco: Atuo como neurologista.
Nunca deixei de exercer a neurologia, isto porque para ser um neurocirurgião há necessidade que se saiba neuroclínica.
Confesso que não me imaginava trabalhando com sono se não tivesse tido este AVCH.
Hoje, vejo que foi a mão de Deus. Ajudo muito mais as pessoas agora com toda certeza.

Guia-me: Como é possível ter um sono de qualidade diante de uma vida moderna, com trabalho desgastante, trânsito, luzes em excesso etc?
Dr. Pacheco: É difícil, mas não impossível.
Costumo dizer que a melhor coisa é ter Paz.
Não ir para a cama com raiva, mágoas.
Devemos nos libertar desses sentimentos, aí ja teremos 80% do caminho andado.
O restante, a ciência faz, com medicamento, orientação etc.

Guia-me: É possível definir a quantidade de sono ideal para uma criança, um jovem e um adulto?Dr. Pacheco: Estudos nos mostram que as crianças necessitam de mais horas de sono que o adulto, isto porque ela está em desenvolvimento, crescimento.
Sabemos por exemplo que o hormônio do crescimento é liberado especialmente durante o sono.
Mas há um engano por parte das pessoas quando acham que temos que dormir pelo menos oito horas por dia. Isto é um engano.
Temos que dormir o tempo que for necessário para que no dia seguinte nos sintamos bem, descansados e dispostos para a jornada diária.
Então, existem pessoas que se sentem bem no dia seguinte com apenas seis horas de sono, outras, necessitam de oito a dez horas de sono, e ainda há aqueles que necessitam de doze horas de sono para sentirem-se descansados no dia seguite.
São os chamados: curto dormidores, médio dormidores e longos dormidores.
Depende muito de pessoa para pessoa a quantidade de horas para dormir. Importante ainda é dizer que qualidade de sono não pode ser confundida com quantidade de sono.
Uma pessoa pode dormir por muitas horas e ter uma qualidade de sono péssima.

Guia-me: Quais são os distúrbios do sono que o senhor atende com mais frequência em seu consultório?Dr. Pacheco: Há muitos distúrbios do sono, mais de cem, mas os mais frequentes são: Sindrome da Apnéia e Hipopnéia Obstritova do Sono (SAHOS), Sonambulismo, Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), Insônia, Sonolência excessiva, Narcolepsia, Terror noturno etc.

Guia-me: Quais são os mais graves?
Dr. Pacheco: Considero os mais graves a Síndrome da Apnéia e Hipopnéia Obstrutiva do Sono que se não tratada a médio, longo prazo, pode acarretar problemas cardiovasculares como: AVC, infarto, Hipertensão e outros relacionados.
Este distúrbio pode acometer crianças, mulheres e homens.
Deve ser tratado com seriedade, principalmente se tratando de uma criança.
A insônia também é bem frequente e deteriora a vida da pessoa, a Síndrome das Pernas Inquietas. Estes distúrbios comprometem muito a qualidade de vida do paciente se não tratados adequadamente e podem comprometer a vida de outras pessoas também.

Guia-me: Como funciona a polissonografia? Para quem ela é indicada?
Dr. Pacheco: A polissonografia é um exame feito geralmente durante a noite, onde as variáveis do sono são monitoradas e registradas como: eletroencefalograma, eletro oculograma, eletrocardiograma, eletromiograma de mente e/ou permas, fluxo aéreo nasal e bucal, microfone para detectar o ronco, oximetria.
Este exame também pode ser registrado por vídeo.
Com ele podemos detectar como é a noite de sono do paciente, se ele tem algum distúrbio do sono e qual, para que se possa dar a terapêutica indicada para cada caso.
É bem comum um mesmo paciente ter mais de um distúrbio do sono.

Guia-me: Em sua opinião, as pessoas dão a devida importância aos distúrbios do sono?
Dr. Pacheco: Este é um assunto novo.
As pessoas precisam ser esclarecidas a respeito dos distúrbios do sono e suas consequências.
Ainda há muita desinformação a respeito, mesmo no meio médico.
Quando as pessoas são esclarecidas a respeito, elas buscam atendimento médico.
É muito importante que principalmente os profissionais de saúde saibam detectar quando o paciente é possível portador de um distúrbio do sono e encaminhá-lo para um especialista nesta área.

Guia-me: Quais são as consequências mais graves?
Dr. Pacheco: Depende do tipo distúrbio, mas vai desde irritabilidade, falta de concentração, memória, sonolência diurna excessiva, depressão, hipertensão e outros como isolamento social, além de que outras pessoas do convívio familiar estarão envolvidas com o problema deste paciente: há casos de separação de casais.
Não devemos deixar de registrar que muitas vezes tais distúrbios podem levar a morbidade ou mortalidade.
* A pesquisa entrevistou mais de 42 mil pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Vitória, Recife, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza e Curitiba.

O que é uma malformação arteriovenosa (MAV) ?

 SBNR
Dr. Carlos Michel Albuquerque Peres
Local de trabalho:  1. HOSPITAL SANTA JÚLIA – MANAUS  2. CONSULTÓRIO MÉDICO: RUA ACRE, 12 SALA 211 – CEMOM – MANAUS
Contatos telefônicos: 092 3234 1395  e 9435 1009
Email: cmaperes@mac.com
Mini CV:  Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas (1992). Residência Médica em Neurocirurgia pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (1992/1997). Especialização em Neurorradiologia Terapêutica na Universidade Nancy I, França (2005/2006)

1. O que é uma malformação arteriovenosa  (MAV) ?
Uma das doenças mais difíceis de explicar para o paciente, na minha experiência de consultório, é a malformação arteriovenosa. Para entender esta doença, é necessário uma breve explicação básica sobre alguns termos, sem os quais é impossível o entendimento:
Artéria: vaso sanguíneo que leva sangue oxigenado do coração para os órgãos (rins, cérebro, fígado, etc.). É um vaso mais robusto, que tem uma parede muscular que permite que suporte uma pressão sanguínea maior.
Veia: vaso sanguíneo que leva o sangue usado (sem oxigênio) de volta para o coração. As veias são mais finas, não suportam grandes pressões sanguíneas como a pressão arterial.
Capilares: pequenos vasos sanguíneos, que ficam dentro dos tecidos, comunicando uma artéria com uma veia.  Uma das funções deles é evitar que o sangue arterial (com pressão alta) passe pra dentro do sangue venoso (pressão bem mais baixa).
Normalmente, a sequencia é artéria se ramificando em pequenas artérias, depois capilares, em seguida veias pequenas e veia maior.
No caso das malformações arteriovenosas, o que ocorre de anormal é uma comunicação direta entre uma artéria e uma veia, sem haver a formação de uma rede de capilares para amortecer. Desta forma, se esta comunicação anormal ocorrer, a veia vai estourar, pois não suportará muito tempo receber um sangue arterial, isto é, com maior pressão, a esta comunicação anormal, damos o nome de “fístula”, e dentro de uma MAV pode haver uma ou mais fístulas.

2. E por que surgem as malformações arteriovenosas ?
As malformações arteriovenosas ( conhecidas como “MAV”) surgem provavelmente por um desvio do desenvolvimento normal dos vasos do sistema nervoso. A partir da sétima semana de vida embrionária, uma anomalia poderia fazer os pequenos capilares arteriais e venosos se coalescerem (se juntarem), formando uma comunicação direta entre as veias e as artérias.
Mesmo na literatura especializada, existem dúvidas sobre as verdadeiras causas do desvio do desenvolvimento vascular normal do embrião.

3. Como é uma malformação arteriovenosa?
Uma MAV é composta basicamente de uma porção central (que chamamos de “nido”), uma ou várias artérias nutridoras e uma ou algumas veias de drenagem.
O nido é constituído por uma rede de canais vasculares, que não são totalmente artéria ou veia, sem interposição de capilares.  Como não há capilares, é fácil entender que o nido é o local onde as MAVs se rompem, visto que o sangue arterial passa diretamente para o lado venoso. O nido fica, na maioria das vezes, dentro do cérebro, e o tecido cerebral em volta geralmente é atrofiado e com sinais de hemorragias antigas, mesmo que o paciente nunca tenha apresentado sinais clínicos de sangramento.

4. Quais os sintomas de um paciente com malformação arteriovenosa?
As MAVs geralmente são clinicamente silenciosas até o sintoma inicial, que pode ser hemorragia, crise convulsiva ou déficits neurológicos.
Clinicamente, podem se manifestar como dores de cabeça (cefaléia), crises convulsivas (ataques epilépticos) ou perda de força em um dos lados do corpo. Alguns pacientes podem apresentar sintomas conforme o local do cérebro onde as MAVs se localizam, como por exemplo, perda de visão, nas MAVs próximas às áreas da visão ,  ou déficit motor, nas MAVs próximas às áreas motoras do cérebro.

5. Como se faz o diagnóstico de uma malformação arteriovenosa?
Inicialmente temos que ter a suspeita clínica de ter ocorrido uma hemorragia cerebral para, posteriormente, submetermos o paciente a exames complementares, na seguinte ordem:
- Tomografia do crânio: pode identificar hemorragia cerebral. Quando isto ocorre em um paciente jovem, levanta a suspeita de que a causa da hemorragia poça ser uma MAV.
- Ressonância do encéfalo: este exame é fundamental para o estudo e diagnóstico de uma MAV. Mostra não só a lesão, mas pode também mostrar aneurismas associados, e mesmo sinais de hemorragia recente ou antiga, que são essenciais na decisão do tratamento.
- Angiografia cerebral: é o exame mais importante, além de definir o nido da MAV, vai avaliar a hemodinâmica da malformação, ou seja, se há sinais de perigo para uma hemorragia, como:
  • fístulas arteriovenosas de alto fluxo
  • presença de aneurismas arteriais ou venosos
  • estreitamentos na drenagem venosa

6. Quais as complicações de uma malformação arteriovenosa?
As artérias da MAV tem uma circulação muito rápida, assim, é comum que elas seja dilatadas, grossas, podendo levar à hemorragia; e em cerca de 15% dos casos, podem se formar aneurismas, que também podem sangrar.
As veias de drenagem também sofrem, e podem surgir varizes (dilatações) venosas que podem sangrar.
Um fenômeno interessante é que, como existe uma passagem rápida de sangue arterial para a veia, o cérebro normal, vizinho à MAV, sofre um “roubo” de fluxo, podendo sofrer isquemia, o que pode causar déficit ou crise convulsiva.

7. Como se trata uma malformação arteriovenosa?
Aqui cabe explicar que existem 2 grupos de malformações arteriovenosas:
a) aquelas que sangraram (ou seja, o paciente teve uma hemorragia, ou AVC hemorrágico devido à ruptura de uma MAV, aneurisma arterial ou venoso).
b) aquelas que se manifestam somente com sintomas que não sangramento: crises convulsivas, déficit neurológico ou dor de cabeça, etc.
Para o primeiro grupo, não há grande discordância entre os especialista sobre a necessidade de se tratar. E há três métodos de tratamento que são utilizados, às vezes isoladamente ou combinados entre si: cirurgia, embolização, ou radiocirurgia (explicaremos melhor abaixo).
Já para o grupo que não sangrou, não existe uma resposta precisa, pois nenhum trabalho científico, comparando estes pacientes, foi concluído. O estudo ARUBA poderá trazer resposta para isto (veja pergunta abaixo sobre isto).

8.  Como é feito o tratamento clínico de uma malformação arteriovenosa?
Não existe um tratamento a base de medicamentos para tratar a malformação arteriovenosa. O que se trata são os sintomas decorrentes das MAVs:
Crises convulsivas: são tratadas com medicação anticonvulsivante, as quais vão ser diferentes conforme o tipo de crise.
Dores de cabeça (cefaleia): primeiro é preciso ter certeza de que a cefaleia não foi causada por uma hemorragia. No caso de ter sido uma dor sem relação com hemorragia, o tratamento é com analgésicos ou com medidas clínicas, de acordo com cada paciente. Nos pacientes onde ocorreu hemorragia, o tratamento deve ser individualizado, indo desde somente uma observação e repouso, até mesmo uma cirurgia de urgência.

9. Tratamento por embolização, cirurgia ou radiocirurgia: quando está indicado cada um deles ou associação dos mesmos?
As malformações arteriovenosas são avaliadas de forma multidisciplinar, ou seja, por um grupo de médicos. Assim, neurologista, neurocirurgião, radioterapêuta e neurorradiologista terapêutico (intervencionista) avaliam o caso para decidir, junto com o paciente, o melhor tratamento. Normalmente, usamos uma escala chamada Spetzler-Martin modificada por Oliveira para nos orientar na decisão. Esta escala varia de 1 a 5 (do mais simples para o mais complexo). Em linhas gerais, nos casos das MAV’s que sangraram:
1. MAVs graus 1 e 2 devem ser tratadas por cirurgia aberta ou por embolização. A opção de radiocirurgia fica reservada para os pacientes que, após serem devidamente informados dos riscos, não aceitam os tratamentos citados previamente
2. MAVs grau 3A devem ser geralmente tratadas com cirurgia, sendo que a embolização é usada, em associação, para se diminuir o tamanho ou quando houver fatores de angioarquitetura que a justifique. Nestes casos, também se pode usar, após a embolização, a radiocirurgia.
3. MAVs grau 3B devem ser geralmente tratadas com radiocirurgia, sendo que a embolização é usada, em associação, quando houver fatores de angioarquitetura que a justifique.
4. MAVs grau 4 e 5 geralmente são tratadas com combinações de embolização e radiocirurgia, e muito raramente com cirurgia.  Em muitos casos, o tratamento não visa à cura, mas somente ao alívio de fenômeno de “roubo de fluxo”, para controle de edema (inchaço do cérebro) e redução de fístulas, isto é, para melhora dos sintomas ou diminuir o risco de hemorragia.
10. Como é feita  a embolização?
Tal tratamento deve ser feito somente por especialista em neurorradiologia terapêutica, especialmente treinado para tal.
O procedimento é feito numa sala especial (hemodinâmica) que conta com aparelhagem sofisticada de raios-X digital.  É feito sob anestesia geral, pois é necessário uma total imobilização da cabeça do paciente.
É realizada uma punção arterial na artéria da virilha (femoral), e um catéter (pequeno tubo) sobe pela artéria aorta até a base do pescoço. Através deste cateter, passa outro cateter menor (microcateter). Este vai navegar pela circulação intracraniana, até fazer um cateterismo “superseletivo”, ou seja, vai ser posicionado em artérias pequenas, dentro do nido da MAV.
São feitos vários controles com injeção de contraste, à base de iodo, dentro do microcateter, e quando o neurorradiologista visibiliza que o microcateter encontra-se alojado dentro do nido , injeta substâncias embolizantes (cola ou Onyx), que visam preencher o nido da MAV.
O objetivo principal é reduzir o fluxo de alta pressão das artérias dentro das veias, conforme explicado acima, podendo vir mesmo a ocluir o nido, levando, em alguns pacientes, à cura.

11. Quais os cuidados após a embolização?
O paciente geralmente é encaminhado para uma Unidade de Terapia Intensiva ou de cuidados semi-intensivos pra pernoite. Deve ser mantido de repouso, e com controle rigoroso da pressão arterial, que deve ser mantida rigorosamente em níveis um pouco abaixo do normal.
Geralmente é realizada uma tomografia de crânio no dia seguinte, e se nenhuma hemorragia ou edema for detectado, o paciente recebe alta da UTI, permanecendo no hospital por mais 1 ou 2 dias, para  depois receber alta hospitalar devendo continuar a tomar todos os medicamentos que já usava anteriormente (anticonvulsivantes especialmente), assim como ir às consultas de rotina com seu neurologista  de confiança. Consulta com o neurorradiologista terapêutico, que efetuou a embolização, deve ser marcada para a semana seguinte à alta hospitalar.
É importante frisar que a rotina acima se refere a pacientes que estão bem antes da embolização. Há casos que já estão internados há longo tempo devido a uma extensa hemorragia cerebral. Nestes casos, a internação pode ser bem mais longa, mesmo após a embolização.

12. Quais as complicações da embolização?
Hemorragia: pode haver obliteração excessiva das veias, ocasionando sangramento. Nem todas as hemorragias precisam ser tratadas com cirurgia, somente as de grande volume.
Cefaleia: pode haver piora da dor de cabeça devido a edema (inchaço) do cérebro sem que tenha ocorrido hemorragia ou cefaleia por hemorragia, mesmo que pequena, pode ocorrer.
Déficit neurológico, como paralisias, perda visual, perda de fala, devido a oclusão de pequenas artérias ou pequena hemorragia, podem ocorrer.

13. Por que podem ser necessárias várias sessões de embolização? Não dá pra resolver de uma vez só?
A grande maioria dos serviços de neurorradiologia no mundo fazem as embolizações de forma fracionada (divididas em várias sessões), pelo fato de ocorrer uma menor taxa de complicações. Existem trabalhos que mostram que, em casos selecionados, é possível se tratar somente com uma sessão, mas isto é uma exceção.

14. E aqueles pacientes que tem malformação arteriovenosa que nunca apresentaram hemorragia (sangramento), o que deve ser feito?
Há um estudo chamado ARUBA (sigla em inglês para Estudo das MAVs que não Sangraram) cujo objetivo é de se tentar estabelecer se vale ou não a pena se tratar uma MAV que nunca sangrou. Este estudo foi interrompido em maio deste ano, pois os resultados preliminares mostraram que a taxa de complicações foi mais alta nos pacientes tratados cirurgicamente ou com qualquer modalidade de tratamento ou combinação deles, do que nos pacientes tratados somente clinicamente (tratamento somente dos sintomas como convulsão ou dor de cabeça). Fica em aberto o comportamento destes grupos no seguimento a longo termo (10-20 anos), no intuito de se determinar os riscos de sangramento e sequelas no grupo tratado cirurgicamente e no grupo apenas com tratamento clínico, de forma que as conclusões finais ainda não foram divulgadas.
Nossa opinião é de que esta resposta deve ser vista caso a caso, isto é, a conduta deve ser individualizada.  Nenhum paciente é igual ao outro. A angiografia cerebral ajuda muito a responder a questão se devemos tratar ou não um paciente que nunca sangrou.
Há casos em que existem algumas anormalidades que sugerem que é altíssimo o risco de hemorragias (exemplo: fístulas de fluxo sanguíneo extremamente alto desaguando em uma veia que está entupida parcialmente). “Nestes casos, é provável que que se indique tratamento.
Agradeço à colaboração do Dr. Evandro César de Souza – Neurocirurgião / Radioterapêuta do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que revisou o texto e propôs valiosas alterações.

Mac HD:Users:Michel:Pictures:Aperture Library.aplibrary:Previews:2013:07:23:20130723-205203:ZlGcZr3ATKOtto6Zr%XMpA:MAV 3D.jpg
MAV com artéria nutridoras e nido.
Mac HD:Users:Michel:Desktop:MAV pre TEV.jpgMac HD:Users:Michel:Desktop:MAV pos TEV.jpg
PRÉ-EMBOLIZAÇÃO                                            PÓS-EMBOLIZAÇÃO

Dr. Carlos Michel Albuquerque Peres
Local de trabalho:  1. HOSPITAL SANTA JÚLIA – MANAUS  2. CONSULTÓRIO MÉDICO: RUA ACRE, 12 SALA 211 – CEMOM – MANAUS
Contatos telefônicos: 092 3234 1395  e 9435 1009
Email: cmaperes@mac.com
Mini CV:  Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas (1992). Residência Médica em Neurocirurgia pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (1992/1997). Especialização em Neurorradiologia Terapêutica na Universidade Nancy I, França (2005/2006)

1. O que é uma malformação arteriovenosa  (MAV) ?
Uma das doenças mais difíceis de explicar para o paciente, na minha experiência de consultório, é a malformação arteriovenosa. Para entender esta doença, é necessário uma breve explicação básica sobre alguns termos, sem os quais é impossível o entendimento:
Artéria: vaso sanguíneo que leva sangue oxigenado do coração para os órgãos (rins, cérebro, fígado, etc.). É um vaso mais robusto, que tem uma parede muscular que permite que suporte uma pressão sanguínea maior.
Veia: vaso sanguíneo que leva o sangue usado (sem oxigênio) de volta para o coração. As veias são mais finas, não suportam grandes pressões sanguíneas como a pressão arterial.
Capilares: pequenos vasos sanguíneos, que ficam dentro dos tecidos, comunicando uma artéria com uma veia.  Uma das funções deles é evitar que o sangue arterial (com pressão alta) passe pra dentro do sangue venoso (pressão bem mais baixa).
Normalmente, a sequencia é artéria se ramificando em pequenas artérias, depois capilares, em seguida veias pequenas e veia maior.
No caso das malformações arteriovenosas, o que ocorre de anormal é uma comunicação direta entre uma artéria e uma veia, sem haver a formação de uma rede de capilares para amortecer. Desta forma, se esta comunicação anormal ocorrer, a veia vai estourar, pois não suportará muito tempo receber um sangue arterial, isto é, com maior pressão, a esta comunicação anormal, damos o nome de “fístula”, e dentro de uma MAV pode haver uma ou mais fístulas.

2. E por que surgem as malformações arteriovenosas ?
As malformações arteriovenosas ( conhecidas como “MAV”) surgem provavelmente por um desvio do desenvolvimento normal dos vasos do sistema nervoso. A partir da sétima semana de vida embrionária, uma anomalia poderia fazer os pequenos capilares arteriais e venosos se coalescerem (se juntarem), formando uma comunicação direta entre as veias e as artérias.
Mesmo na literatura especializada, existem dúvidas sobre as verdadeiras causas do desvio do desenvolvimento vascular normal do embrião.

3. Como é uma malformação arteriovenosa?
Uma MAV é composta basicamente de uma porção central (que chamamos de “nido”), uma ou várias artérias nutridoras e uma ou algumas veias de drenagem.
O nido é constituído por uma rede de canais vasculares, que não são totalmente artéria ou veia, sem interposição de capilares.  Como não há capilares, é fácil entender que o nido é o local onde as MAVs se rompem, visto que o sangue arterial passa diretamente para o lado venoso. O nido fica, na maioria das vezes, dentro do cérebro, e o tecido cerebral em volta geralmente é atrofiado e com sinais de hemorragias antigas, mesmo que o paciente nunca tenha apresentado sinais clínicos de sangramento.

4. Quais os sintomas de um paciente com malformação arteriovenosa?
As MAVs geralmente são clinicamente silenciosas até o sintoma inicial, que pode ser hemorragia, crise convulsiva ou déficits neurológicos.
Clinicamente, podem se manifestar como dores de cabeça (cefaléia), crises convulsivas (ataques epilépticos) ou perda de força em um dos lados do corpo. Alguns pacientes podem apresentar sintomas conforme o local do cérebro onde as MAVs se localizam, como por exemplo, perda de visão, nas MAVs próximas às áreas da visão ,  ou déficit motor, nas MAVs próximas às áreas motoras do cérebro.

5. Como se faz o diagnóstico de uma malformação arteriovenosa?
Inicialmente temos que ter a suspeita clínica de ter ocorrido uma hemorragia cerebral para, posteriormente, submetermos o paciente a exames complementares, na seguinte ordem:
- Tomografia do crânio: pode identificar hemorragia cerebral. Quando isto ocorre em um paciente jovem, levanta a suspeita de que a causa da hemorragia poça ser uma MAV.
- Ressonância do encéfalo: este exame é fundamental para o estudo e diagnóstico de uma MAV. Mostra não só a lesão, mas pode também mostrar aneurismas associados, e mesmo sinais de hemorragia recente ou antiga, que são essenciais na decisão do tratamento.
- Angiografia cerebral: é o exame mais importante, além de definir o nido da MAV, vai avaliar a hemodinâmica da malformação, ou seja, se há sinais de perigo para uma hemorragia, como:
  • fístulas arteriovenosas de alto fluxo
  • presença de aneurismas arteriais ou venosos
  • estreitamentos na drenagem venosa

6. Quais as complicações de uma malformação arteriovenosa?
As artérias da MAV tem uma circulação muito rápida, assim, é comum que elas seja dilatadas, grossas, podendo levar à hemorragia; e em cerca de 15% dos casos, podem se formar aneurismas, que também podem sangrar.
As veias de drenagem também sofrem, e podem surgir varizes (dilatações) venosas que podem sangrar.
Um fenômeno interessante é que, como existe uma passagem rápida de sangue arterial para a veia, o cérebro normal, vizinho à MAV, sofre um “roubo” de fluxo, podendo sofrer isquemia, o que pode causar déficit ou crise convulsiva.

7. Como se trata uma malformação arteriovenosa?
Aqui cabe explicar que existem 2 grupos de malformações arteriovenosas:
a) aquelas que sangraram (ou seja, o paciente teve uma hemorragia, ou AVC hemorrágico devido à ruptura de uma MAV, aneurisma arterial ou venoso).
b) aquelas que se manifestam somente com sintomas que não sangramento: crises convulsivas, déficit neurológico ou dor de cabeça, etc.
Para o primeiro grupo, não há grande discordância entre os especialista sobre a necessidade de se tratar. E há três métodos de tratamento que são utilizados, às vezes isoladamente ou combinados entre si: cirurgia, embolização, ou radiocirurgia (explicaremos melhor abaixo).
Já para o grupo que não sangrou, não existe uma resposta precisa, pois nenhum trabalho científico, comparando estes pacientes, foi concluído. O estudo ARUBA poderá trazer resposta para isto (veja pergunta abaixo sobre isto).

8.  Como é feito o tratamento clínico de uma malformação arteriovenosa?
Não existe um tratamento a base de medicamentos para tratar a malformação arteriovenosa. O que se trata são os sintomas decorrentes das MAVs:
Crises convulsivas: são tratadas com medicação anticonvulsivante, as quais vão ser diferentes conforme o tipo de crise.
Dores de cabeça (cefaleia): primeiro é preciso ter certeza de que a cefaleia não foi causada por uma hemorragia. No caso de ter sido uma dor sem relação com hemorragia, o tratamento é com analgésicos ou com medidas clínicas, de acordo com cada paciente. Nos pacientes onde ocorreu hemorragia, o tratamento deve ser individualizado, indo desde somente uma observação e repouso, até mesmo uma cirurgia de urgência.

9. Tratamento por embolização, cirurgia ou radiocirurgia: quando está indicado cada um deles ou associação dos mesmos?
As malformações arteriovenosas são avaliadas de forma multidisciplinar, ou seja, por um grupo de médicos. Assim, neurologista, neurocirurgião, radioterapêuta e neurorradiologista terapêutico (intervencionista) avaliam o caso para decidir, junto com o paciente, o melhor tratamento. Normalmente, usamos uma escala chamada Spetzler-Martin modificada por Oliveira para nos orientar na decisão. Esta escala varia de 1 a 5 (do mais simples para o mais complexo). Em linhas gerais, nos casos das MAV’s que sangraram:
1. MAVs graus 1 e 2 devem ser tratadas por cirurgia aberta ou por embolização. A opção de radiocirurgia fica reservada para os pacientes que, após serem devidamente informados dos riscos, não aceitam os tratamentos citados previamente
2. MAVs grau 3A devem ser geralmente tratadas com cirurgia, sendo que a embolização é usada, em associação, para se diminuir o tamanho ou quando houver fatores de angioarquitetura que a justifique. Nestes casos, também se pode usar, após a embolização, a radiocirurgia.
3. MAVs grau 3B devem ser geralmente tratadas com radiocirurgia, sendo que a embolização é usada, em associação, quando houver fatores de angioarquitetura que a justifique.
4. MAVs grau 4 e 5 geralmente são tratadas com combinações de embolização e radiocirurgia, e muito raramente com cirurgia.  Em muitos casos, o tratamento não visa à cura, mas somente ao alívio de fenômeno de “roubo de fluxo”, para controle de edema (inchaço do cérebro) e redução de fístulas, isto é, para melhora dos sintomas ou diminuir o risco de hemorragia.
10. Como é feita  a embolização?
Tal tratamento deve ser feito somente por especialista em neurorradiologia terapêutica, especialmente treinado para tal.
O procedimento é feito numa sala especial (hemodinâmica) que conta com aparelhagem sofisticada de raios-X digital.  É feito sob anestesia geral, pois é necessário uma total imobilização da cabeça do paciente.
É realizada uma punção arterial na artéria da virilha (femoral), e um catéter (pequeno tubo) sobe pela artéria aorta até a base do pescoço. Através deste cateter, passa outro cateter menor (microcateter). Este vai navegar pela circulação intracraniana, até fazer um cateterismo “superseletivo”, ou seja, vai ser posicionado em artérias pequenas, dentro do nido da MAV.
São feitos vários controles com injeção de contraste, à base de iodo, dentro do microcateter, e quando o neurorradiologista visibiliza que o microcateter encontra-se alojado dentro do nido , injeta substâncias embolizantes (cola ou Onyx), que visam preencher o nido da MAV.
O objetivo principal é reduzir o fluxo de alta pressão das artérias dentro das veias, conforme explicado acima, podendo vir mesmo a ocluir o nido, levando, em alguns pacientes, à cura.

11. Quais os cuidados após a embolização?
O paciente geralmente é encaminhado para uma Unidade de Terapia Intensiva ou de cuidados semi-intensivos pra pernoite. Deve ser mantido de repouso, e com controle rigoroso da pressão arterial, que deve ser mantida rigorosamente em níveis um pouco abaixo do normal.
Geralmente é realizada uma tomografia de crânio no dia seguinte, e se nenhuma hemorragia ou edema for detectado, o paciente recebe alta da UTI, permanecendo no hospital por mais 1 ou 2 dias, para  depois receber alta hospitalar devendo continuar a tomar todos os medicamentos que já usava anteriormente (anticonvulsivantes especialmente), assim como ir às consultas de rotina com seu neurologista  de confiança. Consulta com o neurorradiologista terapêutico, que efetuou a embolização, deve ser marcada para a semana seguinte à alta hospitalar.
É importante frisar que a rotina acima se refere a pacientes que estão bem antes da embolização. Há casos que já estão internados há longo tempo devido a uma extensa hemorragia cerebral. Nestes casos, a internação pode ser bem mais longa, mesmo após a embolização.

12. Quais as complicações da embolização?
Hemorragia: pode haver obliteração excessiva das veias, ocasionando sangramento. Nem todas as hemorragias precisam ser tratadas com cirurgia, somente as de grande volume.
Cefaleia: pode haver piora da dor de cabeça devido a edema (inchaço) do cérebro sem que tenha ocorrido hemorragia ou cefaleia por hemorragia, mesmo que pequena, pode ocorrer.
Déficit neurológico, como paralisias, perda visual, perda de fala, devido a oclusão de pequenas artérias ou pequena hemorragia, podem ocorrer.

13. Por que podem ser necessárias várias sessões de embolização? Não dá pra resolver de uma vez só?
A grande maioria dos serviços de neurorradiologia no mundo fazem as embolizações de forma fracionada (divididas em várias sessões), pelo fato de ocorrer uma menor taxa de complicações. Existem trabalhos que mostram que, em casos selecionados, é possível se tratar somente com uma sessão, mas isto é uma exceção.

14. E aqueles pacientes que tem malformação arteriovenosa que nunca apresentaram hemorragia (sangramento), o que deve ser feito?
Há um estudo chamado ARUBA (sigla em inglês para Estudo das MAVs que não Sangraram) cujo objetivo é de se tentar estabelecer se vale ou não a pena se tratar uma MAV que nunca sangrou. Este estudo foi interrompido em maio deste ano, pois os resultados preliminares mostraram que a taxa de complicações foi mais alta nos pacientes tratados cirurgicamente ou com qualquer modalidade de tratamento ou combinação deles, do que nos pacientes tratados somente clinicamente (tratamento somente dos sintomas como convulsão ou dor de cabeça). Fica em aberto o comportamento destes grupos no seguimento a longo termo (10-20 anos), no intuito de se determinar os riscos de sangramento e sequelas no grupo tratado cirurgicamente e no grupo apenas com tratamento clínico, de forma que as conclusões finais ainda não foram divulgadas.
Nossa opinião é de que esta resposta deve ser vista caso a caso, isto é, a conduta deve ser individualizada.  Nenhum paciente é igual ao outro. A angiografia cerebral ajuda muito a responder a questão se devemos tratar ou não um paciente que nunca sangrou.
Há casos em que existem algumas anormalidades que sugerem que é altíssimo o risco de hemorragias (exemplo: fístulas de fluxo sanguíneo extremamente alto desaguando em uma veia que está entupida parcialmente). “Nestes casos, é provável que que se indique tratamento.
Agradeço à colaboração do Dr. Evandro César de Souza – Neurocirurgião / Radioterapêuta do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que revisou o texto e propôs valiosas alterações.

Mac HD:Users:Michel:Pictures:Aperture Library.aplibrary:Previews:2013:07:23:20130723-205203:ZlGcZr3ATKOtto6Zr%XMpA:MAV 3D.jpg
MAV com artéria nutridoras e nido.
Mac HD:Users:Michel:Desktop:MAV pre TEV.jpgMac HD:Users:Michel:Desktop:MAV pos TEV.jpg
PRÉ-EMBOLIZAÇÃO                                            PÓS-EMBOLIZAÇÃO

Arquivo do blog